O cinema que encara o espelho: "O Projeto" e o debate que a Europa prefere adiar
Documentário de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic estreia em 19 de novembro, no Mês da Consciência Negra, propondo um olhar ensaístico sobre o colonialismo. Em vez de aula de história, o filme usa corpos e vivências para confrontar o que a Europa ainda reluta em nomear.

Nesta matéria
Há algo de deliberadamente desconfortável na imagem de Sabrina Fidalgo com um pregador de roupas apertando o nariz. Não é metáfora sutil, nem pretende ser. A cena aparece no documentário O Projetoprimeiro longa-metragem da cineasta brasileira, e sintetiza com crueza o gesto de quem foi ensinada a ocupar menos espaço, a afinar o tom, a se fazer menor. O filme estreia nos cinemas em 19 de novembro, data que coincide com o Mês da Consciência Negra, e carrega desde o título uma provocação: o colonialismo não foi um episódio encerrado, mas um projeto contínuo, com responsáveis nomeáveis e beneficiários identificáveis.
A escolha de estreiar nesse mês não é acidente de calendário. É uma afirmação política que conecta o debate sobre racismo no Brasil a uma conversa mais ampla, que atravessa o Atlântico e chega a países onde a própria palavra colonialismo ainda soa como intrusão. O fotógrafo suíço Yvan Rodic, que co-dirige o filme, é explícito sobre isso: até 2022, segundo ele, a discussão sobre a responsabilidade da Suíça no sistema colonial era praticamente inexistente para o grande público. A constatação ajuda a entender por que um filme brasileiro sobre colonialismo precisa, também, de um olhar europeu disposto a se colocar na cena.
Um ensaio em vez de uma aula
O primeiro impulso de quem ouve falar de um documentário sobre colonialismo é imaginar uma linha do tempo, mapas, arquivos, narração em tom de câmera lenta. Sabrina e Yvan escaparam dessa armadilha com uma decisão narrativa que muda tudo. Em vez de um filme histórico, fizeram um ensaio pessoal, construído a partir das próprias vivências e dos corpos dos diretores. A cineasta explica a opção com clareza: contar o projeto colonial através de suas histórias era mais potente do que entregar um documentário quadrado. A referência declarada é Agnès Varda, especialmente em Visages, Villagese também Eu Não Sou Seu Negrode Raoul Peck.
Essa opção ensaística tem um custo e um ganho. O custo é abrir mão da pretensão de exaustividade, da autoridade do historiador que apresenta dados e os deixa falar por si. O ganho é outro: o filme se torna habitável. Quem assiste não recebe uma palestra, mas é convidado a sentar numa conversa onde as feridas estão à mostra. A imagem de Sabrina com o pregador no nariz é o extremo desse gesto, mas o filme inteiro opera nessa chave de exposição controlada, onde a vulnerabilidade é método e não acessório.
A pesquisa, ainda assim, é robusta. Seis anos de produção, sete países visitados, e uma lista de entrevistados que inclui a filósofa Djamila Ribeiro, o escritor Anderson França, o ativista Preto Zezé, a arquiteta e urbanista Joice Berth, além de vozes do outro lado do Atlântico como o historiador suíço Hans Fässler, a artista visual afegã Moshtari Hilal, a jornalista francesa Rokhaya Diallo e o geógrafo Sinthujan Varatharajah. O filme cita inclusive uma reportagem da Agência Brasil sobre como o racismo afeta a saúde desde o nascimento até a morte, integrando dados estruturais ao tecido pessoal da narrativa.
O branco que entra na conversa
Uma das decisões mais comentadas do filme é a presença de Yvan Rodic não apenas como co-diretor, mas como sujeito da obra. Ele avalia, com honestidade desconfortável, que um filme antirracista realizado exclusivamente por uma pessoa negra despertaria muito menos interesse. A frase é dura porque é verdadeira, e ela diz mais sobre o mercado e os públicos do que sobre o filme. Yvan fala como homem branco que percebeu, diante do assassinato de George Floyd por um policial nos Estados Unidos em 2020, que viver aquele momento sem tomar uma atitude parecia impossível. Foi esse senso de urgência, segundo ele, que deu origem ao projeto.
A vice-presidenta da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), Janaína Refem, lê a presença de Yvan como uma porta de diálogo. Sua avaliação é direta: o racismo não é problema nosso, é um problema inventado pelos brancos, e o filme da Sabrina desenha isso. A formulação pode incomodar, mas ela desloca o eixo de uma conversa que historicamente cobra das vítimas a prova do dano e a elaboração da cura. Se o colonialismo foi um projeto, houve projetistas, executores e herdeiros. O filme pergunta o que esses herdeiros pretendem fazer com o que herdaram.
O cineasta e pesquisador Joel Zito Araújo, que acompanha a trajetória de Sabrina, celebra o primeiro longa da diretora e a descreve como original e talentosa. O elogio não é retórica de festival. Sabrina chegou ao cinema por um caminho que inclui discriminação vivida na juventude e durante os estudos em uma faculdade de cinema na Alemanha, experiência que o filme transforma em material narrativo. A originalidade que Joel Zito reconhece está justamente nessa recusa de separar o que se vive do que se filma.
O circuito que valida
O percurso de O Projeto pelos festivais brasileiros diz tanto sobre o filme quanto sobre o momento do cinema nacional. A produção foi selecionada para a competição de documentários do 54º Festival de Cinema de Gramado, abriu o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, integrou a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e será exibida no 36º Cine Ceará. Não é um circuito de gentileza. É a rota de um filme que encontrou, em espaços distintos, curadores dispostos a reconhecer a relevância de um debate que o cinema brasileiro tem feito, mas que ainda não esgotou.
O que O Projeto propõe, no fim, é menos uma resposta do que um reposicionamento. A intelectual portuguesa Grada Kilomba, uma das vozes do filme, sintetiza o diagnóstico: a sociedade ocidental vive um estado de absoluta ignorância, de não saber, de não ter que saber e não dever saber. O filme de Sabrina e Yvan não resolve esse estado, mas recusa participar dele. E talvez seja exatamente isso que o torne necessário: a coragem de nomear o que se prefere não ver, no mês em que o Brasil deveria, finalmente, olhar de frente.
Referências desta matéria
Consulte as fontes usadas pela redação.
Sugerir uma correção




