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Fronteiras, memória e tela: como o cinema e a arte reescrevem o Brasil

Entre o luto por Sebastián Lelio e festivais no Amapá, Rio e Recife, a cena cultural brasileira descentraliza narrativas e resgata histórias silenciadas.

Por André ValençaRedação QuantaBoo6 min de leitura
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O luto pela morte do cineasta chileno Sebastián Lelio, aos 52 anos, ocorrida nesta sexta-feira (6), traz à tona o poder de uma câmera bem posicionada. Ele dirigiu "Uma mulher fantástica", primeiro filme estrelado por uma pessoa transgênero, a atriz Daniela Vega, a ganhar um Oscar de melhor filme internacional. A perda de Lelio, que também abordou protestos feministas no Chile em seu último trabalho, "A onda" (2025), coincide com um momento peculiar da cena cultural brasileira. Iniciativas em diferentes cantos do país parecem abraçar a mesma tese do diretor: dar visibilidade a quem a história costuma apagar e descentralizar a produção artística. De Oiapoque, no extremo norte do Amapá, ao centro do Rio de Janeiro e às praças de Recife, o audiovisual e as artes visuais estão redesenhando a narrativa nacional com escolhas estratégicas claras.

A fronteira que vira tela no extremo norte

A cidade de Oiapoque, muitas vezes reduzida a um ponto isolado no mapa, assume um papel inédito a partir de dezembro. Entre os dias 7 e 11, a cidade sediará a primeira edição do Festival Internacional Audiovisual de Fronteira do Amapá, o Fest Cine Fronteira. A iniciativa tem uma estratégia clara: usar o cinema para costurar laços culturais entre a Região Norte do Brasil e os territórios do Platô das Guianas, abrangendo Guiana Francesa, Guiana e Suriname. As inscrições seguem abertas até 15 de novembro para produções concluídas entre 2025 e outubro de 2026, nas categorias de longa e curta de ficção e documentário.

A escolha de Oiapoque como sede não é um detalhe logístico, mas uma declaração de princípios. Durante muito tempo, a produção audiovisual amazônica lutou contra o isolamento e a falta de estruturas de distribuição. Ao reunir realizadores de três países vizinhos, o festival transforma uma fronteira geopolítica em uma ponte cultural. O orçamento é modesto, com uma premiação total de R$ 10 mil distribuída entre as categorias, mas o custo de não investir nesse intercâmbio seria a perpetuação do vazio narrativo na região. O evento, organizado pela Duda Filmes em parceria com a Zagaia Filmes e a Associação dos Profissionais do Audiovisual do Amapá (APROAP), aposta que o valor simbólico dessa integração supera qualquer limitação financeira.

A mostra competitiva selecionará 12 produções, sendo cinco longas e sete curtas. A parceria com o Festival de Roteiro Audiovisual da Amazônia (FERA) e a Roteiraria Amazônia reforça o ecossistema. Não se trata apenas de exibir filmes, mas de criar uma infraestrutura de roteiro e produção que sustente a narrativa da floresta e de seus vizinhos. A consequência dessa escolha é o fortalecimento de uma identidade regional que transcende as linhas divisórias dos mapas.

Ancestralidade e o peso da história no centro do Rio

Se Oiapoque olha para os vizinhos de fronteira, o Museu Nacional de Belas Artes, no centro do Rio de Janeiro, volta o olhar para dentro da própria história do país. A exposição "Abolicionistas Brasileiras", em cartaz até 19 de dezembro, faz um movimento estratégico de resgate. A mostra reúne trabalhos contemporâneos e peças do acervo do museu para lançar novos olhares sobre a trajetória de oito mulheres que lutaram contra a escravidão. A curadoria costura o passado com a luta antirracista contemporânea, mostrando que o racismo estrutural ainda exige enfrentamento.

A lista de homenageadas é um corretivo histórico. Nomes como Anastácia, Aqualtune, Luiza Mahin, Maria Felipa, Maria Firmina dos Reis, Adelina, Esperança Garcia e Maria Tomásia ganham contornos artísticos que escapam do silenciamento. A escultura da artista visual Mônica Ventura, que coloca um balaio sobre um pilar de tijolos de barro, resume bem essa tese. O cesto, usado desde a escravidão por mulheres negras para vender produtos e obter renda, vira um símbolo de emancipação econômica. A mostra não apenas lembra o passado, mas questiona o presente, evidenciando as consequências de uma sociedade que ainda lida com os ecos da escravidão.

A profundidade das histórias resgatadas dá peso à exposição. Aqualtune, retratada por Guilhermina Augusti, é apresentada em dois momentos: como princesa e filha do rei do Congo, e depois como cativa, com papel de liderança no Quilombo dos Palmares. Esperança Garcia, reconhecida pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) como a primeira advogada do país, tem sua carta de 1770 destacada como uma precursora do habeas corpus. Maria Firmina dos Reis é lembrada como autora do primeiro romance abolicionista. A escolha de resgatar essas figuras não é um exercício de nostalgia, mas uma ferramenta estratégica para entender a formação social brasileira e as desigualdades que persistem.

Animação popular e a democratização do olhar no Recife

A descentralização cultural também encontra terreno fértil em Pernambuco. A 16ª edição do Festival Internacional de Animação de Pernambuco, o Animage, acontece entre 20 e 29 de novembro e traz uma escala impressionante: mais de 280 filmes de 60 países. O grande diferencial desta edição não está apenas no volume, mas na escolha estratégica de ocupar a cidade. Todas as sessões são gratuitas e a novidade é a Mostra Parque, que leva o cinema para locais como a Ilha de Deus, a Praça do Hipódromo e o Parque da Tamarineira, além de espaços tradicionais como o Cinema São Luiz.

Tirar a animação das salas convencionais e jogá-la nas praças tem um custo organizacional, mas o retorno social é imenso. O festival aposta em mostras temáticas, como a Africana, com curadoria da artista Kalor Pacheco, e a Erótica, para expandir os limites do que o público consome. A decisão de abrir o evento no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, com a animação francesa "Jim Queen", dialoga diretamente com a reflexão proposta pela exposição no Rio de Janeiro. Em ambos os casos, a arte se posiciona como uma ferramenta de reeducação do olhar.

O Animage ainda reforça o mercado local com o Animage Conecta, oferecendo oficinas, rodadas de negócios e masterclasses. A premiação de R$ 32 mil, somada ao Troféu Petrobras Escolha do Público, mostra que é possível aliar acesso popular e profissionalização. A consequência de democratizar o ingresso é a formação de uma plateia mais diversa e crítica, essencial para a sustentação de qualquer política cultural a longo prazo.

O cenário cultural deste novembro revela um movimento coerente, ainda que disperso geograficamente. Seja na fronteira do Amapá, nos museus do Rio ou nas praças de Recife, há uma decisão clara de contar outras histórias e ampliar quem tem o direito de contá-las. A morte de Sebastián Lelio serve como um lembrete melancólico, mas oportuno, de que a representação importa e transforma realidades. Quando o cinema e a arte visual decidem olhar para as margens, sejam elas geográficas, raciais ou de gênero, o custo da produção é compensado pela riqueza da narrativa. O Brasil que se exibe nestes festivais e mostras é um país que escolhe questionar seu próprio reflexo, e essa pode ser a estratégia cultural mais relevante dos últimos tempos.

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