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Irene Santos e a fotografia que recusou o esquecimento de Porto Alegre

A morte da fotógrafa gaúcha aos 78 anos deixa um legado de resgate da memória negra em uma cidade que tentou apagá-la. Seu trabalho provoca uma pergunta que vale para todo o Brasil: quem decide o que entra na história?

Por André ValençaRedação QuantaBoo6 min de leitura
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Imagem ilustrativa para Irene Santos e a fotografia que recusou o esquecimento de Porto Alegre
Capa ilustrativa gerada com inteligência artificial.
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Há fotografias que documentam, e há fotografias que resgatam. Irene de Figueiredo Santos, morta nesta terça-feira (27) em Porto Alegre aos 78 anos, dedicou a vida inteira ao segundo tipo. Não basta dizer que foi uma fotógrafa talentosa, embora tenha sido. O que a separa da maioria dos profissionais da imagem é uma escolha política e estética radical: decidiu apontar a lente para onde a historiografia oficial do Rio Grande do Sul jamais olhou. Seu livro mais conhecido, Negro em Preto e Brancopublicado em 2005 e premiado com o Açorianos de Literatura no ano seguinte, reúne fotografias e histórias de famílias negras de Porto Alegre, pessoas que, nas palavras da própria Irene, corriam o risco de ser eliminadas dos anais da história da cidade.

Ela se dizia autodidata na fotografia, mas formou-se em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e essa combinação entre o olhar da lente e o método do historiador explica boa parte de sua potência. Não era uma fotógrafa que saía à caça de imagens bonitas e depois encontrava nelas algum sentido. Era o contrário: partia de uma pergunta histórica, de uma lacuna, de um silêncio, e ia buscar no arquivo e na rua as pessoas e cenas que poderiam preencher esse vazio. A fotografia analógica, segundo ela mesma disse em entrevista ao jornal Brasil de Fato em 2021, garantiu a heroica resistência de uma população invisível. A palavra invisível não é metáfora neste caso. É diagnóstico.

O que Porto Alegre não queria ver

Irene nasceu em 1947 na mesma cidade onde morreu, e esse detalhe biográfico importa. Não era uma pesquisadora de fora que chegou para estudar o exótico. Era uma mulher porto-alegrense que percebeu, ao longo da vida, que a cidade contava uma história incompleta sobre si mesma. Porto Alegre, como boa parte das capitais brasileiras, construiu uma narrativa oficial em que a presença negra aparece de forma periférica, folklorizada ou simplesmente omitida. O trabalho de Irene consistiu em mostrar que essa ausência era uma construção deliberada, não um acidente. Em sua leitura, a fotografia serviu para provar a existência de negros honestos e trabalhadores em uma cidade racista. A frase é dura porque a realidade é dura.

O livro Colonos e Quilombolasoutra obra sua, aprofunda essa investigação ao focar nas memórias das colônias africanas de Porto Alegre. São comunidades cuja trajetória se entrelaça com a formação urbana da capital, mas que raramente aparecem nos livros didáticos ou nos museus tradicionais. Irene também explorou o carnaval de rua da cidade entre 1930 e 1969 no webdocumentário Outros Carnavaismostrando que a festa popular guardava camadas de significado que a versão oficial, mais turística e mais branca, costuma apagar. Neste ano, o Museu da UFRGS reapresentou parte de seu acervo na exposição A Força da Memóriaum reconhecimento tardio mas significativo de quem passou décadas trabalhando à margem dos circuitos consagrados.

Por que esse legado interessa além do Rio Grande do Sul

Pode parecer que a morte de uma fotógrafa gaúcha interessa apenas ao Rio Grande do Sul, mas o recorte é enganoso. O que Irene Santos fez em Porto Alegre espelha um problema nacional: a forma como a memória brasileira é seletiva, e como essa seletividade opera por omissão. Não é preciso apagar documentos para produzir esquecimento. Basta não arquivar, não pesquisar, não publicar, não expor. A historiografia oficial, em qualquer cidade do país, tende a registrar os vencedores, os proprietários, os governantes. A população negra, indígena, migrante, trabalhadora, aparece em notas de rodapé ou em capítulos sobre escravidão, como se sua existência terminasse com a Abolição. Irene mostrou que a existência não terminou. Continuou, resistiu, criou instituições, festejou, trabalhou, formou famílias. A ausência dessa continuidade nos registros oficiais é o que torna seu trabalho tão incômodo e tão necessário.

A jornalista Jeanice Ramos, do Núcleo de Jornalistas Afro-brasileiros do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, disse que Irene foi uma referência na fotografia do estado e deixou um legado significativo. É uma avaliação correta, mas vale sublinhar o que torna esse legado diferente de uma simples produção artística. Irene não apenas fotografou bem. Ela criou uma linguagem própria que unia imagem e pesquisa histórica, e essa linguagem tinha uma função clara: devolver às pessoas negras de Porto Alegre o direito de aparecer na história da própria cidade. O direito de ser sujeito, não apenas pano de fundo.

A memória como escolha cotidiana

A morte de Irene Santos chega em um momento em que o debate sobre memória e representação ganha força no Brasil, ainda que de forma desigual. Há iniciativas importantes em várias cidades, de museus comunitários a projetos de história oral, mas o trabalho de resgate ainda depende muito da iniciativa individual de pesquisadores, artistas e ativistas. Quando essa pessoa morre, o que acontece com o acervo, com os contatos, com as histórias ainda não publicadas? A exposição A Força da Memória na UFRGS sugere que parte do material está institucionalizado, mas a pergunta sobre a continuidade desse trabalho permanece. Memória não é algo que se constrói uma vez e se arquiva. É uma escolha que se renova, ou se perde.

No mesmo fim de semana em que a notícia da morte de Irene circula, o Recife abre a 20ª edição do Festival de Circo do Brasil, com o tema Rebuliço, ocupando teatros, parques e praças com atrações que dialogam com a diversidade cultural brasileira e internacional. Entre os espetáculos, há obras que articulam acrobacia, dança e referências afro-brasileiras para abordar racismo e resistência, como Assum Pretodo Coletivo Instrumento de Ver, do Distrito Federal, e {FÉ}STAdo Coletivo Prot{agô}nistas, de São Paulo, que aborda experiências do corpo negro em diáspora. São exemplos de como a cultura viva, feita no presente, também é uma forma de resistir ao esquecimento. Irene Santos escolheu a fotografia e a pesquisa histórica. Outros escolhem o picadeiro, o teatro, a roda de coco. O que une esses gestos é a recusa de aceitar que a história do Brasil já está escrita e fechada.

Irene de Figueiredo Santos deixa livros, exposições, fotografias e uma trajetória que deveria ser estudada nas escolas de jornalismo, de história e de artes visuais. Mas deixa principalmente uma pergunta que não deveria morrer com ela: quantas populações invisíveis ainda esperam por alguém que decida apontar a lente para elas? A resposta, se depender do legado que ela construiu, não precisa vir de um único nome. Pode vir de muitos, desde que aceitem o risco de olhar onde a cidade ensinou a não olhar.

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