Educação

A vaga a qualquer custo: o que a fraude em universidade federal revela sobre a pressão por acesso ao ensino superior

Um estudante reprovado no ensino médio falsificou históricos três vezes para tentar ingressar na UFU pelo Sisu. O caso, que passou por acordo frustrado e agora virou denúncia criminal, expõe as fissuras de um sistema que transforma o diploma em moeda de sobrevivência.

Por André ValençaRedação QuantaBoo6 min de leitura
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Capa ilustrativa gerada com inteligência artificial.
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Há algo profundamente desconcertante no caso de um estudante que, reprovado no terceiro ano do ensino médio, editou digitalmente o próprio histórico escolar não uma, mas três vezes, na tentativa de garantir uma vaga no curso de Enfermagem da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). O episódio, denunciado pelo Ministério Público Federal no final de outubro, não é apenas uma história de fraude isolada. É o retrato de uma pressão que se tornou estrutural no Brasil: a de que o acesso ao ensino superior funciona como uma porta giratória entre a dignidade e o precário, e que quem fica de fora não tem tempo para tentar de novo.

O jovem tentou ingressar na UFU pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), mecanismo que usa a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para distribuir vagas em instituições federais. Quando foi convocado pela lista de espera, em janeiro de 2022, enviou um histórico escolar que indicava aprovação no ensino médio, mas com notas insuficientes em Língua Portuguesa e Sociologia. Notificado pela universidade para regularizar a documentação, enviou uma segunda versão, agora com notas alteradas e anos escolares modificados. Os servidores da UFU perceberam que os códigos de barras e a posição gráfica das assinaturas eram idênticos ao arquivo anterior. Mesmo após um novo prazo para correção, o candidato apresentou um terceiro histórico, igualmente falso. A escola de origem, contatada pela universidade, confirmou que o estudante havia sido reprovado e que nunca emitiu aqueles documentos.

Quando o acordo não basta: o peso da continuidade delitiva

Antes de denunciar, o MPF propôs um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP), instrumento que permite encerrar a investigação sem ação penal mediante condições como prestação de serviços à comunidade e regularização dos estudos. O estudante deveria cumprir seis meses de serviços comunitários, com carga semanal de sete horas, além de concluir formalmente o ensino médio e comprovar a regularização no prazo estipulado. Não cumpriu. Não se manifestou mesmo após notificação. O acordo foi cancelado e a denúncia seguiu para a Justiça Federal, enquadrando a conduta no crime de uso de documento público falso, com agravante de continuidade delitiva, já que os documentos foram apresentados mais de uma vez no mesmo processo de matrícula.

Aqui vale uma reflexão que vai além do caso específico. O ANPP existe justamente para casos em que o investigado reconhece o erro e demonstra disposição de repará-lo. Quando o acordo fracassa, algo mais profundo está em jogo. Não se trata apenas de imprudência ou de uma escolha consciente pela fraude como atalho. Trata-se, possivelmente, de alguém que não conseguiu enxergar um caminho legítimo de volta, seja por desinformação sobre as possibilidades de regularização, seja por uma sensação de que o tempo já havia se esgotado. A pressão por não ficar para trás, no Brasil, raramente vem acompanhada de orientação sobre como retomar o rumo.

A outra face da pressão: quando a escola ignora o que acontece nos corredores

Enquanto o caso da UFU revela a pressão por acesso ao ensino superior, outro episódio, ocorrido no Rio de Janeiro, expõe uma fissura igualmente grave na outra ponta do sistema educacional. Uma mãe morreu após passar mal ao tentar separar uma briga entre duas adolescentes em frente à Escola Municipal João Proença, em Campo Grande, na Zona Oeste da cidade. A vítima era mãe de uma das jovens envolvidas. Familiares afirmam que ela já havia procurado a direção da escola para relatar que a filha vinha sofrendo ameaças dentro da unidade e que nenhuma providência teria sido tomada.

A Secretaria Municipal de Educação informou que a vítima havia ido buscar a filha, que estava envolvida em um caso de indisciplina, e que a confusão ocorreu fora da unidade de ensino. A pasta disse ainda que acompanha o caso e presta suporte. Mas o detalhe que mais pesa nessa história é o silêncio que precedeu a tragédia. Se a família de fato procurou a escola e não obteve resposta, há uma falha que não se resolve com notas oficiais. A escola que não escuta é tão responsável pela ruptura do ambiente educacional quanto o aluno que agride. E quando o ciclo de violação se completa, quem paga é quem estava tentando proteger.

Esses dois casos, aparentemente distantes, conversam entre si. Um mostra um jovem que falsifica documentos porque não enxerga outra rota para a universidade. O outro mostra uma família que busca a escola como instância de proteção e encontra omissão. Em ambos, a instituição educacional aparece como um espaço que deveria acolher, orientar e corrigir rotas, mas que em momentos decisivos falha em cumprir esse papel. Não se trata de culpar a escola por tudo, mas de reconhecer que quando a escola se omite, seja na fiscalização de documentos, seja na escuta de denúncias de violência, o custo social se multiplica.

O caminho legítimo existe, mas precisa ser visível

No mesmo período em que esses casos vieram à tona, o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) anunciou 496 vagas de estágio e aprendizagem no Ceará, distribuídas entre ensino médio, superior e cursos técnicos, em áreas que vão de Administração a Meio Ambiente, de Saúde a Segurança. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas online, com a possibilidade de incluir redação e vídeo de apresentação para enriquecer o perfil. É um lembrete de que existem portas legítimas de entrada no mercado e na carreira, e que nem sempre o caminho precisa passar pela universidade federal no primeiro tentativa.

O problema é que essas portas não são igualmente visíveis para todos. O estudante que falsifica um histórico provavelmente não conhecia, ou não acreditava, nas alternativas de regularização e reinserção. A família que perdeu a mãe em Campo Grande provavelmente não sabia para onde recorrer quando a escola não respondeu. A informação sobre direitos, prazos e rotas alternativas dentro do sistema educacional brasileiro ainda é um privilégio, não uma garantia.

O caso da UFU deve servir para algo mais do que manchetes sobre crime. Deve provocar uma discussão sobre como orientar quem fica para trás, como tornar visíveis os caminhos de retorno e como garantir que a escola, em qualquer nível, seja uma instituição que escuta antes que a pressão vire tragédia. A vaga na universidade não pode ser uma moeda tão cara que alguém se disponha a falsificar a própria história para alcançá-la. E a escola não pode ser um lugar onde o grito de socorro de uma mãe se perca antes de chegar a quem deveria ouvir.

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