O paradoxo da inteligência artificial: entre a busca por ética e a sede de estabilidade
Enquanto gigantes da tecnologia recorrem a religiões para ensinar ética à IA e empresas pedem governança rigorosa, a Geração Z brasileira reage ao avanço dos algoritmos com um pedido inesperado: a carteira assinada.

Nesta matéria
Há algo de paradoxal no momento em que vivemos. De um lado, laboratórios de tecnologia correm para criar a inteligência artificial (IA) mais poderosa de todas. Do outro, os mesmos executivos que lideram essa corrida estão sentando com filósofos e líderes religiosos no Vaticano para tentar entender como ensinar a uma máquina a diferença entre o certo e o errado. É como se tivéssemos construído um motor incrivelmente veloz, mas tivéssemos esquecido de instalar o volante. Essa busca por um norte moral não fica apenas nos laboratórios. Ela desce para o chão de fábrica, chega às franquias e, de maneira bastante inesperada, dita como a nova geração enxerga o próprio futuro profissional.
A busca por um manual moral para a máquina
O CEO da OpenAI, Sam Altman, já disse que gostaria que um sistema como o ChatGPT refletisse uma espécie de média ponderada da visão moral da humanidade. A ideia soa bonita no palco de uma conferência, mas esbarra na realidade de como as crenças funcionam. Empresas como a Anthropic têm se reunido com acadêmicos e clérigos de mais de 15 grupos religiosos e interculturais para tentar extrair princípios éticos para seus modelos. A intenção é encontrar um conjunto de regras que oriente a IA em um cenário onde o medo da tecnologia se espalha rápido pela sociedade.
O problema, como alerta o antropólogo Webb Keane, da Universidade de Michigan, é que a religião não é exatamente um livro de regras que pode ser recortado e colado em um código. Há décadas, estudiosos contestam essa visão simplificada, lembrando que a fé está profundamente ligada à cultura, à política e às maneiras improvisadas pelas quais as pessoas vivem no dia a dia. Tentar isolar princípios morais de diferentes tradições para treinar uma IA pode acabar priorizando algumas visões e distorcendo outras. A tecnologia, que deveria ser neutra, corre o risco de carregar os vieses de quem decidiu quais partes de quais religiões merecem entrar no algoritmo.
O risco sem governança e o papel da tecnologia da informação
Se a ética da IA já é um desafio filosófico complexo, no ambiente corporativo ela vira um problema prático e urgente. Durante o ABF Legal Day, evento da Associação Brasileira de Franchising (ABF), especialistas debateram como o uso da inteligência artificial exige uma governança contratual séria. A advogada Flávia Lopes, do Kopenhagen, resumiu bem a questão ao afirmar que entender a melhor forma de usar a IA não pode ser tema exclusivo do departamento jurídico. É uma conversa multidisciplinar, onde a área de negócios e a tecnologia da informação (TI) precisam andar juntas para levar diretrizes seguras aos franqueados.
A TI das empresas assume aqui um papel de guardiã. É a equipe técnica que sabe a origem dos dados e onde eles serão armazenados, o que é vital para evitar que informações sensíveis virem combustível para modelos de IA mal configurados. Quando agentes virtuais criados para responder ao público não têm limites bem definidos, podem reproduzir vieses discriminatórios e provocar crises de imagem. A diretora jurídica do CNA, Eloisa Crivellaro, alertou que muitos CEOs estão inclinados a usar a IA apenas para reduzir custos em um cenário regulatório que ainda não fechou. A regulação, no entanto, é uma necessidade que se aproxima, da mesma forma que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) se tornou realidade.
A geração que olha para a IA e pede a carteira assinada
Toda essa incerteza tecnológica e regulatória tem um efeito curioso na base da pirâmide profissional. Uma pesquisa chamada "O Presente do Trabalho", coordenada pela Fundação Toyota do Brasil, ouviu 158 estudantes de instituições como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) em Sorocaba e São Caetano do Sul. O resultado derruba o estereótipo de que a Geração Z só quer ser dona do próprio nariz e viver de trabalhos freelancer. Para os próximos cinco anos, 62% dos jovens citaram o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em uma grande empresa como o trabalho ideal.
O dado é fascinante porque quatro em cada cinco desses mesmos jovens acreditam que a inteligência artificial eliminará muitos empregos tradicionais. Eles conhecem o risco, mas não reagem com um salto para o empreendedorismo. Reagem com a busca por segurança. No grupo focal da pesquisa, um estudante observou que na indústria, com boa remuneração e plano de carreira, o trabalho é mais estável do que o freela. Ele também notou que o mercado de tecnologia está cada vez mais competitivo, a ponto de haver "500 pessoas em uma vaga de aprendiz".
Os jovens não opõem estabilidade e flexibilidade. Eles querem as duas coisas ao mesmo tempo. Valorizam o equilíbrio entre vida e trabalho, o propósito e a aprendizagem contínua, mas não abrem mão da segurança. O trabalho remoto ou híbrido aparece como o ambiente desejado por 55,7% deles, à frente de empresas de tecnologia e startups. A mensagem é clara: diante de um mundo onde a IA pode reescrever as regras do jogo a qualquer momento, a carteira assinada funciona como uma âncora emocional e financeira.
O avanço da inteligência artificial nos obriga a olhar para duas direções ao mesmo tempo. Para cima, onde os criadores dos algoritmos precisam encontrar um consenso ético que respeite a complexidade humana, e para baixo, onde as empresas precisam estabelecer governanças sólidas para não transformar inovação em passivo jurídico. No meio disso tudo, está o trabalhador. A tecnologia pode prometer um futuro de automação e eficiência, mas a resposta humana a essa promessa, especialmente entre os mais jovens, é um pedido por estabilidade. O desafio não é apenas desenvolver a IA mais inteligente, mas garantir que ela sirva a uma sociedade que ainda precisa de segurança, propósito e trabalho digno.
Referências desta matéria
Consulte as fontes usadas pela redação.
Sugerir uma correção



