Turismo e Viagens

O Brasil que viaja por terra: entre a maratona esportiva e o luto nas rodovias

Um país continental onde equipes de futsal cruzam três estados em dias e famílias percorrem centenas de quilômetros para votar revela os contrastes e os riscos de viajar por estradas brasileiras.

Por Beatriz CastroRedação QuantaBoo6 min de leitura
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Há algo profundamente brasileiro na cena que se repetiu no fim de semana do segundo turno eleitoral: uma família inteira dentro de um carro, cruzando centenas de quilômetros de rodovia para votar na cidade onde ainda tem raízes. Ronaldo Filipe de Jesus, de 33 anos, a companheira Kayra Hartamann, de 31, a sogra Claudia Ramos, de 51, e a pequena Heloísa, de apenas 7 anos, viajaram de Camboriú, no litoral catarinense, até Caçador, no oeste do estado, para exercer o direito de votar. Na volta, na noite de domingo, um caminhão colidiu com o Ford Fiesta em que estavam na BR-470, em Lontras, no Vale do Itajaí. Quatro pessoas da mesma família morreram no local. O filho do casal, de 10 anos, sobreviveu em estado grave. A notícia, divulgada pela g1 Santa Catarinacarrega um detalhe que dói mais do que qualquer estatística: eles estavam voltando de um ato cívico, daqueles que ainda movem gente pelas estradas do Brasil.

É fácil ler a manchete e pensar em mais um acidente de trânsito, mais uma estatística entre as dezenas de milhares que se acumulam anualmente no país. Mas o que aconteceu com essa família revela algo sobre como o brasileiro se desloca, sobre a dimensão continental das distâncias que enfrentamos no dia a dia e sobre a dependência que temos das rodovias. Não é à toa que o deslocamento de eleitores em áreas remotas chegou a ser discutido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) neste mesmo fim de semana. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, havia decidido na sexta-feira que cada viagem de transporte de eleitores indígenas precisaria de aprovação judicial prévia, com identificação de veículos, condutores, rotas e horários. A determinação foi reconsiderada no sábadodepois que o procurador-geral da República argumentou que a exigência poderia inviabilizar a logística em regiões onde o transporte é fluvial e precisa começar antes do dia da votação. Ou seja: em partes do Brasil, chegar à urna é uma operação que envolve barcos, combustível, planejamento de dias e, às vezes, a intervenção direta de órgãos federais.

Um país que se move por terra

O tamanho do Brasil não é abstrato. Ele se materializa na agenda de uma equipe de futsal do Piauí que, nesta mesma semana, embarca numa maratona que parece roteiro de documentário. O Atlético-PI, líder do Campeonato Piauiense e classificado para as semifinais do estadual, viaja na noite de terça-feira para São Paulo, onde pernoita. Na manhã de quarta, segue para Sorriso, no Mato Grosso, onde enfrenta o time local nas quartas de final do Campeonato Brasileiro na quinta, às 20h. Depois do jogo, o elenco retorna a Teresina, desembarcando por volta das 3h da madrugada de sexta. Sem tempo para descansar, segue por estrada até São João do Jaguaribe, no Ceará, onde estreia na Copa do Nordeste de Futsal no domingo. Segundo o geo planejamento prevê quase uma semana longe de casa, com deslocamentos entre três estados e dois torneios diferentes.

Essa agenda não é um luxo de clube grande. É a realidade de quem pratica uma modalidade que ainda busca espaço, em um estado que não está no eixo Rio-São Paulo, precisando cruzar o país para competir. A logística montada pelo Atlético-PI, com escalas, pernoites e viagens terrestres encadeadas, é a mesma que milhares de brasileiros enfrentam por motivos muito menos glamorosos: uma consulta médica, uma audiência judicial, um funeral, uma eleição. A diferença é que o clube tem estrutura para planejar. A família que voltava de Caçador tinha um carro e uma rodovia.

A BR-470 e o custo invisível das estradas brasileiras

A rodovia onde a família morreu é uma das mais movimentadas de Santa Catarina. A BR-470 corta o Vale do Itajaí, ligando o litoral ao oeste do estado, e é rota obrigatória para quem precisa viajar entre regiões que não contam com alternativas ferroviárias ou aéreas viáveis. A colisão aconteceu por volta das 18h20, no km 126, e as causas ainda não foram informadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF). Mas o fato de um carro de passeio e um caminhão dividirem o mesmo asfalto, no mesmo horário, na mesma faixa, é uma imagem que qualquer brasileiro que já pegou estrada reconhece instantaneamente.

O transporte rodoviário responde pela esmagadora maioria do deslocamento de passageiros e carga no Brasil. É um dado estrutural, não uma escolha individual. Quem precisa ir de uma cidade média a outra, dentro do mesmo estado, quase sempre depende do carro ou do ônibus. As alternativas são caras, escassas ou simplesmente não existem. Quando a viagem envolve crianças, idosos ou prazos apertados, o automóvel particular vira a opção mais lógica, ainda que não seja necessariamente a mais segura. A família que voltava de Caçador não estava fazendo nada de imprudente. Estava fazendo o que milhões de brasileiros fazem todos os dias: pegar a estrada.

Claudia Ramos, de 51 anos, era professora da Escola Paulo Schieffler. A instituição publicou uma nota que dizia que ela era "muito mais do que uma professora: era amiga, mãe e uma pessoa especial". Heloísa, de 7 anos, estava no carro com os pais e a avó. O menino de 10 anos que sobreviveu está hospitalizado. Não há como ler essa sequência de informações sem pensar no que significa, em termos concretos, depender de rodovias para viver a vida cívica, profissional e familiar no Brasil.

Quando viajar é um ato de cidadania

O episódio do TSE sobre o transporte de indígenas coloca em evidência um aspecto que costuma ficar invisível para quem vive em centros urbanos com seções eleitorais a poucos quarteirões de casa. Em comunidades quilombolas, ribeirinhas, extrativistas e assentamentos, o deslocamento até o local de votação pode exigir horas de barco, trechos de estrada de terra e coordenação com órgãos federais como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). A Secretaria de Comunicação Social da Presidência informou que o governo garantiria transporte gratuito ou ressarcimento de despesas para essas comunidades. A discussão judicial sobre o tema, resolvida às pressas no sábado anterior à votação, mostra como o direito ao voto depende, literalmente, de logística de viagem.

Há uma conexão pouco comentada entre a família que morreu na BR-470 e os eleitores indígenas que precisaram de barco para votar. Em ambos os casos, o deslocamento é parte do exercício de cidadania. A diferença está no grau de estrutura disponível e no risco envolvido. Um barco em rio da Amazônia e um carro numa rodovia catarinense são veículos de democracia, no sentido mais literal que se pode imaginar. E ambos dependem de condições mínimas de segurança para que a viagem não vire tragédia.

O Brasil não vai deixar de ser continental. As distâncias são o que são, e a rede de transporte rodoviário continuará sendo a espinha dorsal da mobilidade no país pelo tempo que for necessário. Mas talvez valha a pena olhar para cenas como a do Atlético-PI cruzando três estados em uma semana e a da família que voltava de Caçador com outra sensibilidade. Não como episódios isolados de esporte ou de tragédia, mas como retratos de um país que se move por terra, que depende das estradas para competir, votar, trabalhar e se ver. Quando essa dependência custa vidas, o problema deixa de ser de logística e passa a ser de prioridade.

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