Moda

Quando Pelé vira moda: o Rei ganha as ruas em alfaiataria e estilo

A parceria entre Santos FC, Umbro e Pelé Brand resgata os anos dourados do Rei em peças de alfaiataria. É moda que conta história e encontra novo público na era da busca visual.

Por Beatriz CastroRedação QuantaBoo5 min de leitura
Ouça esta matéria.
Imagem ilustrativa para Quando Pelé vira moda: o Rei ganha as ruas em alfaiataria e estilo
Capa ilustrativa gerada com inteligência artificial.
Nesta matéria

Há algo curioso em ver o nome de Pelé associado a alfaiataria. Não o Pelé da camisa 10, o Rei do futebol que mudou o esporte mundial, mas Pelé como referência estética, como inspiração para uma coleção que olha para trás e fala com o presente. A parceria entre Santos FC, Umbro e Pelé Brand, batizada de "O Nome Além do Tempo", faz exatamente esse movimento: resgata as décadas de 1960 e 1970, período em que o Santos e seu craque mais famoso viajaram o mundo em excursões internacionais, e transforma essa memória em roupa.

A linha reúne peças de alfaiataria e modelos casuais que fazem referência à história do clube e do atleta, segundo o Mercado & Consumo. Não é novidade que esporte e moda se cruzam, mas há uma diferença entre estampar um escudo em uma camiseta e construir uma coleção inteira a partir de uma narrativa cultural. O que a parceria propõe é menos vestir um time e mais vestir uma época. Os anos 1960 e 1970 foram o auge das excursões santistas pelo planeta, quando Pelé levou o futebol brasileiro a lugares que nunca tinham visto nada parecido. A coleção pega esse material histórico e o traduz para a linguagem do vestuário, com cortes que remetem a um tempo em que viajar o mundo era também um ato de estilo.

O Nome Além do Tempo: quando a moda vira documento

O que chama atenção nessa coleção não é apenas o nome de Pelé no rótulo, mas a escolha da alfaiataria como veículo principal. Durante muito tempo, a moda esportiva esteve confinada ao universo do material técnico: camisetas de poliéster, jaquetas corta-vento, tênis de marca. Quando uma marca como a Umbro, tradicionalmente ligada ao futebol, decide apostar em alfaiataria, está dizendo algo sobre como o esporte deixou de ser apenas performance para virar patrimônio cultural.

A escolha das décadas de 1960 e 1970 como referência também não é aleatória. Foi o período em que o Santos FC realizou suas famosas excursões internacionais, levando Pelé a estádios da Europa, da Ásia e das Américas. Essas viagens tinham um componente estético que raramente é lembrado: os jogadores viajavam de terno, posavam para fotos em aeroportos com um cuidado visual que hoje chamaríamos de curadoria de imagem. A coleção parece capturar exatamente esse espírito, a ideia de que o futebol brasileiro, antes de ser produto global, foi também um estilo.

Há aqui um movimento maior da moda contemporânea, que é a valorização do arquivo. Marcas cada vez mais mergulham em seu próprio acervo ou no acervo cultural de instituições para criar coleções que não são apenas estéticas, mas narrativas. No caso de "O Nome Além do Tempo", o arquivo não é da marca, mas da memória esportiva brasileira. E isso muda a relação da peça com quem a veste: não se trata apenas de consumir moda, mas de carregar um pedaço de história.

A imagem como ponto de partida: como a busca visual muda a moda

Se por um lado a moda se volta para o passado em busca de referência, por outro a tecnologia está mudando radicalmente a forma como essas referências chegam ao público. Em setembro de 2026, o Google Search Central anunciou a inclusão de dados de busca multimodal no Search Console, a ferramenta que editores e proprietários de sites usam para entender como os usuários encontram seu conteúdo. A novidade permite acompanhar o tráfego gerado por buscas visuais, incluindo aquelas feitas com o Google Lens, o recurso Circle to Search no Android, uploads de imagens na busca do Google e a função de pesquisar uma imagem no Chrome com clique no botão direito.

Para a moda, isso é particularmente relevante. Uma coleção como "O Nome Além do Tempo" é, antes de tudo, um objeto visual. As pessoas veem uma peça em uma rede social, em uma vitrine ou em uma foto de arquivo, e querem saber onde encontrar algo parecido. A busca por imagem elimina o intermediário do texto: em vez de digitar "jaqueta anos 70 estilo Pelé", o usuário aponta a câmera do celular para a foto e recebe resultados. O Google passou a dar aos editores dados sobre esse tipo de interação, o que significa que marcas e lojas podem finalmente entender quanto de seu tráfego vem de quem procurou por imagem e não por palavra-chave.

Isso tem uma consequência prática para quem produz e vende moda. A qualidade visual do registro da peça, a forma como a foto é feita, o contexto em que o produto aparece, tudo isso passa a ser não apenas uma questão de estética, mas de descoberta. Uma coleção inspirada em Pelé nos anos 1970, se fotografada com sensibilidade, tem mais chance de ser encontrada por alguém que buscou visualmente por "moda vintage anos 70" do que se estiver em fotos genéricas de catálogo. A busca multimodal transforma a imagem em porta de entrada, e o Google agora dá os números para provar isso.

Esporte, estilo e a memória que vira roupa

Voltar à coleção do Santos, da Umbro e da Pelé Brand é perceber que ela ocupa um lugar interessante entre duas forças que parecem opostas, mas se complementam. De um lado, a moda que resgata o arquivo, que olha para a memória cultural brasileira e encontra nela material para criar. De outro, a tecnologia que muda como essa moda é encontrada, comprada e consumida, com a imagem ganhando um papel central que o texto costumava monopolizar.

O resultado é que uma peça inspirada nas excursões do Santos nos anos 1970 pode chegar a um jovem que nunca viu Pelé jogar, mas que encontrou a foto da coleção em uma rede social e fez uma busca visual no celular. A memória esportiva encontra a moda, e a moda encontra a tecnologia. Quando Pelé vira referência de alfaiataria, não é apenas o futebol que ganha as ruas. É a própria ideia de que o esporte é parte da cultura visual brasileira, e que essa cultura pode ser vestida, buscada por imagem e redescoberta por quem nem estava vivo na época do Rei.

Referências desta matéria

Consulte as fontes usadas pela redação.

Sugerir uma correção
Ouça esta matéria.