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O título do Gavião Kyikatejê e o futebol que nasce onde a câmera não chega

Primeiro time indígena profissional do Brasil conquista o inédito acesso e o título da Série A3 do Parazão após 17 anos de história. Uma vitória que fala sobre resistência, gestão comunitária e os caminhos do futebol fora do eixo Sul-Sudeste.

Por Helena DuarteRedação QuantaBoo7 min de leitura
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Capa ilustrativa gerada com inteligência artificial.
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Há jogos que cabem na ficha técnica e jogos que precisam de uma vida inteira para serem contados. Na noite de 27 de outubro, em Bom Jesus do Tocantins, no sudeste do Pará, o Gavião Kyikatejê empatou por 0 a 0 com o Tesla e venceu nos pênaltis por 4 a 3. O goleiro Thassyo defendeu duas cobranças, o estádio Lúcio Antunes explodiu, e o primeiro time indígena profissional do Brasil enfim levantou uma taça oficial. O título da terceira divisão do Campeonato Paraense chegou depois de 17 anos de trajetória, com um elenco comandado pelo cacique Jakure Pepkrakte, o Zeca Gavião, que acumula as funções de técnico e presidente. Não é apenas uma conquista esportiva. É a prova de que o futebol profissional brasileiro tem fronteiras que a televisão raramente visita, mas onde o jogo continua sendo uma das poucas instituições capazes de mobilizar uma comunidade inteira.

A história do Gavião Kyikatejê começa em 2007, quando o povo Kyikatejê-Gavião adquiriu os direitos federativos do Castanheira Esporte Clube, agremiação amadora de Marabá. O passo seguinte foi a profissionalização junto à Federação Paraense de Futebol, em 2009. Desde então, o clube oscilou entre as divisões do futebol paraense, chegando a disputar a elite em 2014 e novamente em 2021, quando subiu como vice-campeão da Segundinha e caiu no mesmo ano. A filosofia atual mistura jogadores rodados no cenário local com jovens atletas indígenas, e foi esse modelo que levou o time a fazer a melhor campanha geral da Série A3, garantindo o direito de decidir em casa. O estádio fica na área urbana do município que abriga a Aldeia Kyikatêjê, dentro da Terra Indígena Mãe Maria. O acesso à Série A2 já estava garantido pela condição de finalista, mas o título tinha um peso simbólico que nenhuma planilha de rebaixamento e promoção consegue medir.

O ídolo que não está, mas segue presente

Quem acompanha o clube de perto sabe que a memória do atacante Aru percorre cada conquista. Ele foi o maior símbolo do Gavião nos gramados, ficou conhecido nacionalmente ao marcar o primeiro gol do clube na elite do futebol paraense com pinturas indígenas no corpo e chegou a defender clubes tradicionais como São Raimundo-PA e Parauapebas. Fora do estado, passou por Palmas e Tanabi, no interior de São Paulo, onde dividiu vestiário com o ex-atacante paraguaio Salvador Cabañas. Aru faleceu em 2018, vítima de um acidente de carro na BR-222, em Marabá. A diretoria aposentou a camisa 9 em homenagem póstuma, e o gesto transformou uma ausência em presença permanente. O elenco campeão tem quatro atletas de origem indígena: os defensores Kritoi, Amyn e Krere, além do meio-campista Kre. São nomes que carregam a identidade do povo Kyikatejê dentro de campo, e que agora também carregam um título inédito.

O que torna a gestão do Gavião singular não é apenas a origem indígena, mas a estrutura de comando. Zeca Gavião acumula técnico e presidente, uma combinação que em qualquer clube de divisão superior seria vista como conflito de interesses, mas que na aldeia reflete uma lógica comunitária de tomada de decisão. O clube não é uma empresa isolada do tecido social; é uma extensão dele. Quando o time vence, a aldeia vence. Quando perde, a aldeia se reorganiza. Esse modelo tem limites óbvios em termos de capacidade de investimento e atração de patrocinadores, mas também tem uma vantagem que dinheiro nenhum compra: pertencimento real. A torcida não é um público abstrato, é a própria comunidade que sustenta a existência do clube.

O futebol que acontece longe do holofote

O título do Gavião Kyikatejê chama atenção para um fenômeno mais amplo que ganhou contornos interessantes nesta semana. No mesmo dia em que o time indígena levantava a taça no Pará, o lateral-esquerdo Hélio Jr., de 26 anos, acertava sua transferência para o Guaporé, de Rondônia, para disputar o Campeonato Rondoniense 2027. Revelado na base do Atlético-MG, com passagens por Portugal, Grécia e Albânia, o atleta rondoniense vai defender pela primeira vez um clube profissional em seu estado natal. Em 2019, aos 19 anos, chegou a integrar treinos da Seleção Brasileira principal durante a preparação para a Copa América. A trajetória dele ilustra o caminho inverso do que se costuma esperar: depois de construir a carreira fora, o retorno às origens não é um recuo, mas uma escolha consciente de contribuir com o fortalecimento do futebol local.

Enquanto isso, em Teresina, o Campeonato Piauiense Feminino chegava às semifinais com o Skill Red classificado após goleada por 4 a 0 sobre o Comercial-PI. A atacante Janielly marcou um dos gols e protagonizou uma cena de romantismo ao correr até o alambrado e dar um selinho na companheira durante a comemoração. O gesto, registrado em vídeo, escapou do roteiro habitual das notas esportivas e mostrou que o futebol feminino nos estados também produz narrativas que extrapolam o resultado. As semifinais acontecem no dia 30 de outubro, no estádio Lindolfo Monteiro, com Skill Red x Piripiri às 16h e Atlético-PI x Liga São João às 18h. A final está marcada para 3 de novembro. A Liga São João, em parceria com o Piripiri, é a atual campeã, tendo vencido o Atlético-PI nos pênaltis por 5 a 3 na decisão de 2025.

Se o futebol dos estados carrega uma vitalidade que o calendário nacional muitas vezes ignora, o esporte paralímpico brasileiro também constrói capítulos importantes fora dos grandes centros. A escaladora Lívea Rodrigues, de Praia Grande, no litoral paulista, disputa nesta semana uma etapa do World Climbing Para Series 2026, circuito internacional de paraescalada esportiva organizado pela federação internacional World Climbing, em Gunsan, na Coreia do Sul. A classificatória ocorreu na noite de 28 de outubro, e as finais estão previstas para 30 de outubro. Lívea tem uma doença degenerativa na retina que compromete a visão, iniciou a trajetória esportiva na corrida de rua, passou pelo paratletismo e migrou para a paraescalada em 2025. Em pouco mais de um ano na modalidade, conquistou dois títulos brasileiros, foi convocada para a Seleção e se tornou a primeira mulher sul-americana a competir na classe B2 do circuito mundial. Na categoria para atletas com deficiência visual, um guia permanece na base da parede com microfone ou megafone para ditar as instruções em tempo real. Após a etapa na Coreia do Sul, a delegação brasileira segue para Fukuoka, no Japão, onde disputa a rodada de encerramento da temporada nos dias 4 e 5 de novembro.

O que o título do Gavião significa para o futebol brasileiro

A conquista do Gavião Kyikatejê não vai mudar o calendário do futebol brasileiro nem forçar uma revisão das políticas de acesso e descenso. Mas ela coloca uma questão que o esporte nacional evita fazer: quantos times como o Gavião existem no país sem estrutura, sem visibilidade e sem o direito elementar de errar? O clube disputava a Série A3 desde 2024, levou três temporadas para subir, e o fez com um modelo que mistura jogadores rodados com jovens indígenas. Não há milagre nessa fórmula, há paciência. E paciência é algo que o futebol brasileiro, obcecado por resultados imediatos e soluções de mercado, raramente concede a quem está fora do eixo.

O acesso à Série A2 do Parazão coloca o Gavião diante de um novo desafio. Manter o elenco, atrair investimentos sem perder a identidade e competir em um nível que exige mais recursos e mais rodagem. O histórico mostra que a equipe já esteve na elite e não conseguiu se manter, o que sugere que o teto do projeto ainda está sendo testado. Mas o título inédito muda a narrativa. Pela primeira vez, o Gavião Kyikatejê não é apenas uma história de resistência, é uma história de vitória. E no futebol, como na vida, a diferença entre as duas coisas não é pequena.

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