O interior de São Paulo que o mundo aprendeu a frequentar
Um parque aquático em Olímpia (SP) acaba de ser confirmado como o terceiro mais visitado do planeta. O dado não é acaso: revela como o turismo familiar brasileiro encontrou força fora das capitais.

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Há algo de estranhamente reconfortante em descobrir que o terceiro parque aquático mais visitado do mundo fica numa cidade de pouco mais de 55 mil habitantes no noroeste paulista. Não é em Orlando, não é em Dubai, não é em qualquer daquelas capitais do entretenimento global que aparecem em guias de viagem gringos. É em Olímpia, a chamada "Orlando brasileira", que acaba de receber do TEA Global Experience Index, levantamento da Themed Entertainment Association, a confirmação de que seu parque aquático lidera as Américas em público e ocupa a terceira posição mundial. O dado foi publicado no final de outubro e, embora tenha circulado com moderação na imprensa nacional, diz muito mais sobre o turismo brasileiro do que aparenta à primeira vista.
O número por trás do título é modesto em sua magnitude, mas eloquente em seu significado: o parque registrou crescimento de 5,4% no fluxo de visitantes em 2025, acima da média de 3% observada entre os 20 maiores parques aquáticos do planeta. Ou seja, num ano em que o setor global avançou devagar, um destino no interior de São Paulo cresceu quase o dobro da média. O presidente do parque, Jorge Noronha, atribuiu o resultado a investimentos contínuos e à renovação das atrações, o que soa razoável para quem conhece o mercado. Mas há uma camada mais profunda nessa história, e ela tem a ver com o brasileiro redescobrindo o próprio país.
Quando o turismo sai das capitais
Olímpia não é um fenômeno isolado. Fundado em 1987 a partir da descoberta de fontes termais no subsolo do município, o parque foi a mola propulsora de uma transformação que durou décadas e mudou a economia local. Hoje a cidade vive do turismo familiar 365 dias por ano, com mais de 60 atrações abastecidas por águas quentes naturais, rede hoteleira robusta e infraestrutura voltada para quem viaja em família. É o tipo de destino que não precisa de passagem internacional nem de câmbio favorável para funcionar, e talvez seja exatamente aí que resida sua força.
O brasileiro que viaja pelo Brasil descobriu, nas últimas duas décadas, que o interior paulista oferece uma combinação difícil de ignorar: estradas razoáveis, distâncias viáveis de carro, preços acessíveis em comparação com destinos internacionais e atrações de qualidade. Não por acaso, a poucas horas de Olímpia, outra cidade do interior vive seu próprio momento de consolidação turística. São Pedro, aos pés da Serra do Itaqueri, tem sido apresentada como destino de natureza, aventura e gastronomia, com rota cênica que inclui mirantes, cachoeiras, parques de voo livre e uma feira do produtor rural que valoriza ingredientes locais como o jaracatiá, fruta parente do mamão. É importante observar que parte dessas informações provém de material publicitário da própria prefeitura, portanto devem ser lidas como descrição de oferta turística e não como avaliação independente. Ainda assim, o conjunto é coerente com um padrão real: cidades do interior paulista investindo em turismo como vetor econômico.
O que o ranking internacional revela sobre nós
O detalhe que merece atenção no ranking da TEA não é apenas a posição de Olímpia, mas o contexto em que ela foi alcançada. O relatório cobre os 20 maiores parques aquáticos do mundo, e o fato de um parque brasileiro figurar entre os três primeiros, à frente de congêneres em mercados tradicionais, indica que o turismo familiar no Brasil tem densidade suficiente para competir globalmente em volume de visitantes. Isso não significa qualidade superior ou experiência mais sofisticada, mas significa escala, e escala é o que move investimentos, empregos e infraestrutura.
Há também um componente cultural que não pode ser subestimado. O brasileiro tem uma relação afetiva com a água, com o calor e com o lazer em família que poucos povos igualam. Um parque com águas termais naturais, em uma cidade pequena onde as crianças podem circular com segurança e os pais encontram restaurantes a preços acessíveis, atende a uma demanda que existe independentemente da conjuntura econômica. Não é à toa que o parque opera ininterruptamente, todos os dias do ano. O público não falta.
O que talvez falte, do ponto de vista de política pública, é transformar esses casos em sistema. Olímpia construiu seu sucesso ao longo de quase quatro décadas, com investimento privado consistente e algum apoio municipal. São Pedro trilha caminho semelhante, com a Rota Cênica e investimentos reportados em segurança hídrica. Mas o turismo no interior do Brasil ainda é, em grande medida, uma soma de esforços isolados. Quando um parque de uma cidade pequena aparece em terceiro lugar no ranking mundial, a pergunta que se impõe é quantos outros destinos brasileiros poderiam alcançar projeção semelhante se houvesse planejamento integrado, crédito acessível e infraestrutura de transporte decente. A resposta, a julgar pelo que já existe funcionando, é provavelmente mais do que imaginamos.
O turismo que fica perto de casa
É tentador olhar para o ranking de Olímpia e ver apenas uma vitória isolada de um parque bem administrado. Mas o dado ganha outra dimensão quando lembramos que o deslocamento de curta distância está se tornando cada vez mais relevante no cotidiano do brasileiro. A Uber, por exemplo, lançou no final de outubro o "Preço Único" para viagens de Uber Moto com trajetos de até 3 km, fixado em R$ 4,98, inicialmente em 38 cidades brasileiras. A proposta, segundo a empresa, é dar previsibilidade ao custo de deslocamentos curtos, como o percurso entre casa e uma estação de transporte público. Não é turismo no sentido clássico, mas é mobilidade, e mobilidade é a base sobre a qual o turismo doméstico se sustenta.
Quando o deslocamento curto fica mais barato e previsível, quando parques no interior atraem milhões de visitantes por ano e quando cidades pequenas investem em rotas cênicas e gastronomia local, o que se desenha é um mapa turístico que não depende de aeroportos internacionais nem de pacotes all-inclusive no Caribe. É um turismo que acontece de carro, de ônibus, de moto, em fim de semana comum, com família e orçamento limitado. E que, mesmo assim, gera números capazes de colocar um parque aquático no pódio mundial.
Talvez seja hora de olhar para o interior de São Paulo, e para o interior do Brasil como um todo, com menos condescendência e mais curiosidade. O mundo já está prestando atenção. O ranking da TEA não foi comprado nem encomendado: é um levantamento independente de uma entidade de referência global, e ele diz que um parque em Olímpia atrai mais gente do que a maioria dos seus concorrentes no planeta. Se isso não é motivo para repensar o que valorizamos como destino turístico neste país, difícil dizer o que seria.
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