A morte em pleno voo e o que ela revela sobre a segurança que não vemos
A morte de um adolescente de 13 anos em um voo da Gol, após falhas em equipamentos de emergência relatadas por uma técnica de enfermagem, levanta perguntas incômodas sobre o que existe, de fato, nos aviões para salvar vidas quando o pior acontece.

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Quando embarcamos, a única coisa que queremos é chegar. Não pensamos no kit de emergência, no cilindro de oxigênio, na bolsa de ventilação manual guardada em algum compartimento lá na frente. Esses objetos existem para nunca serem usados, e é exatamente por isso que ninguém questiona se eles funcionam. Até o dia em que alguém precisa deles e descobre, no meio do céu, que talvez não estejam à altura.
Foi o que aconteceu na manhã de 5 de novembro, no voo G3 1389 da Gol, que saiu de Vitória com destino a Guarulhos. Diogo Pompermayer Marchiori, de 13 anos, tinha uma doença cardíaca acompanhada desde a infância e viajava com os pais para uma consulta no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Cerca de 30 minutos antes do pouso, ele acordou reclamando de dor forte no peito, revirou os olhos e desmaiou. O que se seguiu, a bordo daquele avião, foi uma tentativa desesperada de socorro que, segundo quem esteve lá, esbarrou em equipamentos deficientes e em uma resposta de solo que demorou mais do que o aceitável.
O que aconteceu dentro da aeronave
Daniele Valério é técnica de enfermagem. Ela não estava no voo a trabalho, embarcara para fazer uma conexão em São Paulo e seguir para Roma. Quando ouviu passageiros perguntando se havia algum médico a bordo, se prontificou. Conversou com a mãe de Diogo, que explicou brevemente o histórico do adolescente. Ele estava com 41, 42 batimentos cardíacos por minuto, mas foi perdendo consciência, ficando arroxeado, e a equipe improvisada precisou iniciar manobras de reanimação.
Foi aí que os problemas começaram. Daniele relatou que tentou usar um equipamento conhecido como Ambu, a bolsa de ventilação manual que auxilia a respiração de pacientes em emergência. O dispositivo apresentava falhas: desencaixava a todo momento e a sacola interna não inflava. O cilindro de oxigênio disponível na aeronave liberava apenas quatro litros por minuto, quantidade que a técnica considerou insuficiente para uma parada cardíaca. Segundo ela, isso serve para um desconforto leve, não para reanimar alguém. Diante das dificuldades, uma médica que também estava entre os passageiros precisou fazer respiração boca a boca no adolescente.
O padrinho de Diogo, Leandro Mezadre, foi direto no ponto: se tivesse oxigênio adequado, talvez tivesse salvado a vida dele. A frase carrega o peso de quem perdeu alguém e não consegue deixar de pensar no que poderia ter sido diferente. É impossível afirmar que equipamentos em perfeito estado teriam mudado o desfecho, mas é igualmente impossível ignorar que o relato descreve um cenário em que quem tentava salvar uma vida estava lutando contra as ferramentas disponíveis, não apenas contra a própria emergência.
A espera no maior aeroporto da América Latina
O avião pousou em Guarulhos, considerado o maior aeroporto da América Latina. Mesmo assim, segundo os relatos, a ambulância demorou cerca de 15 minutos para chegar à aeronave. Leandro questionou com indignação: um aeroporto gigantesco não tem uma ambulância de prontidão? Daniele também confirmou a demora, embora não soubesse explicar se a ambulância parou em outro lugar ou se houve algum problema de comunicação.
A Gol, questionada sobre as condições dos equipamentos, limitou-se a afirmar que todos os protocolos foram seguidos e que o passageiro foi encaminhado em ambulância para hospital em Guarulhos. A GRU Airport, concessionária do aeroporto, disse em nota que a equipe de resposta a emergências foi acionada, prestou os primeiros socorros e encaminhou o passageiro ao hospital mais próximo. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), questionada sobre as exigências de equipamentos de emergência em aeronaves e sobre a fiscalização das condições relatadas, não respondeu até a publicação da reportagem.
O silêncio da Anac é talvez o mais revelador. Se a agência que regula a aviação civil no Brasil não se pronuncia sobre um caso em que uma técnica de enfermagem descreve falhas em equipamentos de emergência durante uma tentativa de reanimação em pleno voo, fica a pergunta: quem verifica se o que está no avião funciona? Existe uma rotina de inspeção desses materiais? Os cilindros de oxigênio são checados quanto à vazão? Os dispositivos de ventilação manual são testados? São perguntas simples que, aparentemente, não têm respostas fáceis.
O passageiro e a ilusão de segurança
O caso de Diogo não é o único imprevisto recente a bordo de uma aeronave. Na noite de 6 de novembro, o cantor Zé Felipe e a influenciadora Rafa Uccman viveram um susto em Goiânia quando o avião em que estavam apresentou pane durante a tentativa de decolagem. Segundo Rafa, houve um barulho muito forte, semelhante ao da turbina, e uma pressurização anormal da cabine enquanto a aeronave ainda estava no solo. Os pilotos interromperam o procedimento. Ninguém se machucou, mas o episódio ilustra como imprevistos acontecem em momentos banais da viagem, não apenas em cenários extremos.
A diferença entre os dois casos é que um terminou bem e o outro não. Mas ambos expõem a mesma verdade desconfortável: quando algo dá errado em um avião, a margem de manobra é pequena e o tempo é curto. No solo, pode-se abortar a decolagem. No ar, a opções se reduzem drasticamente, e a qualidade do que está guardado naqueles compartimentos passa de detalhe burocrático a diferença entre vida e morte.
Para o passageiro comum, não há checklist prático que resolva isso. Não é razoável exigir que cada viajante verifique o estado do Ambu antes de embarcar. O que existe é uma expectativa, razoável, de que companhias aéreas, aeroportos e o órgão regulador cumpram a parte que lhes cabe. Quando essa cadeia falha, ou quando pelo menos há indícios de que falhou, a resposta não pode ser uma nota padronizada dizendo que os protocolos foram seguidos. Protocolos seguidos com equipamentos deficientes são protocolos que não salvam.
O que fica, depois da tragédia com Diogo, é a sensação de que viajamos dentro de uma ilusão de segurança. A demonstração de máscaras de oxigênio antes da decolagem, as saídas de emergência apontadas pela comissária, o colete salva-vidas sob o assento: tudo isso transmite a ideia de que, se o pior acontecer, há um sistema pronto. Talvez haja. Mas o relato de Daniele Valério sugere que, pelo menos naquele voo, em algum ponto da cadeia, o sistema não estava pronto o suficiente. E que um adolescente de 13 anos, que já lutava contra uma doença cardíaca desde a infância, pode ter pago por essa lacuna com a vida.
Ninguém embarca imaginando que vai precisar reanimar alguém a 35 mil pés de altitude. Mas quando isso acontece, e quando quem se levanta para ajudar descobre que as ferramentas não funcionam, é a hora de perguntar não apenas o que deu errado naquele voo específico, mas o que está sendo feito para que não se repita no próximo. A Anac, a Gol e o aeroporto de Guarulhos devem respostas. Não apenas à família de Diogo, mas a todos nós que, sem pensar, confiamos nossas vidas àqueles compartimentos que esperamos nunca precisar abrir.
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