Turismo e Viagens

O passageiro já viaja no futuro. A fronteira continua no passado

Pesquisa da IATA mostra que viajantes adotam biometria, passaporte digital e IA para planejar viagens, mas governos ainda travam a jornada com burocracia migratória. 43% desistiram de visitar um destino por causa de exigências de entrada.

Por MarthaRedação QuantaBoo6 min de leitura
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Capa ilustrativa gerada com inteligência artificial.
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Há algo curioso acontecendo com quem viaja hoje. O passageiro médio já está confortável com a ideia de passar pelo aeroporto sem mostrar um papel sequer, deixar a inteligência artificial escolher o próximo destino e carregar o passaporte dentro do celular. Do outro lado da esteira, porém, o Estado continua pedindo o mesmo documento três vezes, em três balcões diferentes, como se a tecnologia tivesse chegado aos viajantes e esquecido dos governos. É essa a contradição que a Pesquisa Global de Passageiros 2026, divulgada pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) no final de outubro, expõe com uma clareza desconfortável.

Os números são eloquentes. Quase seis em cada dez passageiros usaram algum processo biométrico no aeroporto nos últimos doze meses, salto de oito pontos percentuais em relação a 2025. Entre quem experimentou, 87% declararam satisfação, o patamar mais alto já registrado pela pesquisa. Ao mesmo tempo, 43% dos viajantes relataram ter desistido de visitar algum destino por causa das exigências de imigração, contra 33% no ano anterior. Ou seja: a tecnologia está encurtando o caminho dentro do terminal e alongando a fronteira do lado de fora dele. O viajante evoluiu mais rápido que a instituição que deveria facilitá-lo.

Biometria e passaporte digital: o viajante já disse sim

A adesão à biometria não é mais uma promessa de futuro, é uma realidade que ganha corpo a cada edição do levantamento. O salto de 24 pontos percentuais desde 2022 mostra que o passageiro experimentou, gostou e quer expandir. Quando 78% dos viajantes afirmam que topam compartilhar dados biométricos se isso dispensar a apresentação do passaporte ou do cartão de embarque, a mensagem é direta: a fila repetitiva de checagem manual já não faz sentido para quem está do lado de cá do balcão.

O apetite por passaporte digital acompanha esse movimento. Quase 84% dos passageiros têm interesse em usar a credencial digital no check-in online, no lugar do documento físico, e 82% aceitariam compartilhar essa informação com a companhia aérea logo após a reserva, em troca de serviços mais personalizados, como orientações sobre vistos. O smartphone já é visto como a central única da viagem, reunindo carteira digital, passaporte eletrônico e cartões de fidelidade em um só aparelho. O passageiro quer resolver tudo na palma da mão, desde a compra da passagem até o embarque.

Mas a adesão tem um preço, e ele se chama confiança. As principais preocupações com a biometria são o vazamento de dados (59%), o compartilhamento de informações com terceiros (49%) e a falta de clareza sobre o tratamento dos dados pessoais (41%). Nick Careen, vice-presidente sênior de Operações, Segurança e Proteção da IATA, resume o impasse com precisão: os benefícios da biometria são substanciais para passageiros, governos e companhias aéreas, mas para que ela se torne o padrão nas viagens internacionais, os governos precisam definir um arcabouço comum para a emissão e aceitação de credenciais digitais seguras. Sem isso, cada país cria seu próprio modelo, o passageiro fica confuso e a tecnologia avança metade do que poderia.

A inteligência artificial já entrou no roteiro

Se a biometria transforma o embarque, a inteligência artificial está redesenhando o momento anterior, aquele em que o viajante decide para onde ir. Quase metade dos passageiros pesquisados (49%) já recorreu à IA para planejar uma viagem. O uso mais comum é a busca por voos para um destino específico (21%), seguido pela procura pelos voos mais baratos (19%) e pela inspiração sobre o próximo destino (17%). Não se trata mais de uma curiosidade tecnológica, mas de uma ferramenta que entrou no fluxo natural de quem organiza uma viagem.

O dado tem um implication direto para o setor de turismo. Como Careen aponta, é fundamental que as companhias aéreas não apenas garantam que suas ofertas apareçam nas plataformas de IA, mas também desenvolvam integrações práticas para converter uma conversa com o assistente em uma reserva real. O passageiro pergunta ao chat qual é o voo mais barato para Lisboa em março, recebe a resposta e quer fechar ali mesmo, sem ser redirecionado para um site lento e confuso. A fricção entre a descoberta e a compra é o próximo gargalo a ser resolvido. E não é apenas o transporte aéreo que sente o impacto: hotéis, agências e operadoras também precisam se preparar para um viajante que chega já com o roteiro desenhado por um algoritmo.

A fronteira que não acompanha

É na fronteira que o contraste fica mais doloroso. O aumento de 10 pontos percentuais no número de passageiros que desistiram de visitar um destino por causa das exigências de imigração, passando de 33% para 43% em um ano, é um sinal de alerta para qualquer país que dependa do turismo. Entre os desencorajados, 53% consideram o processo excessivamente complexo. Privacidade e custo aparecem bem atrás, com 17% cada. O problema não é pagar por um visto, é não conseguir entendê-lo.

O passageiro quer resolver o trâmite migratório antes de chegar ao aeroporto, de forma digital e longe do balcão. 86% estão dispostos a compartilhar informações migratórias digitalmente antes do embarque para agilizar os processos, e 45% preferem concluir tudo antes mesmo de sair de casa. A tecnologia existe, a vontade do viajante também. O que falta é o governo acompanhar o ritmo.

Um episódio recente no Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu, no Paraná, ilustra o outro lado dessa moeda: a fiscalização fronteiriça segue rigorosa e manual em muitos pontos. Um passageiro foi preso nesta semana após o raio-X da bagagem revelar 47 ovos de aves silvestres escondidos em uma caixa de bombons. A inspeção de rotina funcionou, e bem, com a Polícia Federal e o Ibama atuando em conjunto. Mas o caso também lembra que o controle migratório e aduaneiro ainda depende em larga medida de checagens presenciais, equipamentos de raio-X e agentes humanos, um cenário distante da fluidez biométrica que o viajante já experimenta em outros pontos da jornada.

Não há contradição entre segurança e agilidade, e é importante deixar isso claro. O que a pesquisa da IATA revela não é um pedido para afrouxar controles, mas para modernizá-los. Um arcabouço comum de credenciais digitais, vistos eletrônicos padronizados e checagens não duplicadas reduziria a burocracia sem comprometer a segurança. O passageiro está pronto. A tecnologia está disponível. A bola agora está do lado dos governos, e o relógio corre contra destinos que perdem visitantes todos os dias por causa de processos que poderiam ser mais simples.

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