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A judoca de 16 anos que imobilizou a Rússia e manteve viva a maior tradição olímpica do Brasil

Clarisse Vallim conquistou o ouro no judô das Olimpíadas da Juventude em Dakar, mantendo o Brasil no pódio da modalidade em todas as edições do torneio. Inspirada por Rafaela Silva, ela é a prova de que o judô segue como a via mais confiável do esporte olímpico brasileiro.

Por Helena DuarteRedação QuantaBoo5 min de leitura
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Capa ilustrativa gerada com inteligência artificial.
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Quando o hino brasileiro ecoou no ginásio de Dakar, no Senegal, nesta terça-feira, não era apenas uma medalha de ouro que se confirmava. Era a continuidade de uma das tradições mais silenciosas e mais sólidas do esporte olímpico nacional. Clarisse Vallim, 16 anos, imobilizou a russa Anastasiia Dobrovolskaia nos segundos finais da categoria até 78 kg e garantiu o título nos Jogos Olímpicos da Juventude de 2026. O feito, por si só, já seria notável: uma adolescente carioca, cabeça de chave número 1, vencendo por ippon em uma final de tensão absoluta. Mas o que torna essa conquista especialmente significativa é o que ela representa no quadro mais amplo do judô brasileiro.

O judô é a única modalidade em que o Brasil subiu ao pódio em todas as edições dos Jogos Olímpicos da Juventude já disputadas. São quatro torneios, quatro medalhas, com pelo menos uma judoca brasileira no pódio em cada um. Flávia Gomes foi prata em Singapura-2010. Layana Colman foi ouro em Nanquim-2014. Eduarda Vaz Rosa foi bronze em Buenos Aires-2018. Agora, Clarisse Vallim é ouro em Dakar-2026. Nenhuma outra modalidade consegue essa constância. A natação tem mais medalhas no total, sete, e a ginástica artística soma cinco. Mas nenhuma das duas esteve presente em todos os pódios. O judô, sim. E isso não é acaso.

A menina que parou e voltou

Há um detalhe na trajetória de Clarisse que diz muito sobre como o talento esportivo se constrói, e também sobre como ele quase se perde. Ela começou no judô aos quatro anos, incentivada pelo pai, Deivim. Não gostava. Chegou a se afastar dos tatames, mas durou apenas uma semana. O que a trouxe de volta foi uma imagem de televisão: Rafaela Silva conquistando o ouro nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Clarisse era criança ainda, mas viu ali algo que a moveu de volta ao esporte. Hoje, ela é bicampeã mundial cadete na categoria até 70 kg e treina no Flamengo sob a orientação de Rosicleia Campos, Renan Moutinho, Walter Matheus e Murilo Gouveia. Na seleção brasileira, é acompanhada por Maria Portela.

Essa cadeia de transmissão, de uma Rafaela Silva para uma Clarisse Vallim, é o tipo de coisa que não aparece em planilhas de investimento nem em relatórios de gestão. Aparece na vida real, no olhar de uma menina que vê alguém parecido com ela no lugar mais alto do esporte e decide que aquele lugar também pode ser seu. O judô brasileiro construiu, ao longo de décadas, uma estrutura que capta crianças cedo, forma nas bases e dá continuidade técnica e humana a quem mostra potencial. Não é um sistema perfeito, mas é o que melhor funciona entre as modalidades olímpicas do país.

O caminho do ouro em Dakar

A campanha de Clarisse em Dakar não foi uma vitória fácil disfarçada de passeio. Por ser cabeça de chave, ela estreou já nas quartas de final contra Arba Hasanaj, de Kosovo. Tinha um waza-ari no placar quando conseguiu o ippon que a classificou. Na semifinal, outra vitória por ippon, dessa vez sobre a cubana Kayla Pita. A final contra Dobrovolskaia foi o ponto de maior tensão. A russa fez um bom trabalho de solo e chegou a abrir contagem para uma imobilização, mas não converteu. Nos segundos finais, Clarisse encontrou o caminho da vitória justamente no ne-waza, a luta de solo, com uma imobilização perfeita que selou o ouro com mais um ippon.

É curioso notar que Clarisse competiu na categoria até 78 kg em Dakar porque não houve disputa da até 70 kg, sua categoria natural. Mesmo fora de seu peso habitual, ela foi a primeira colocada do chaveamento. Isso diz algo sobre o nível técnico da atleta e também sobre a confiança da comissão técnica brasileira em colocá-la em uma categoria acima sem hesitar. O resultado justificou a aposta.

O que o judô ensina ao resto do esporte brasileiro

Esta foi a segunda medalha do Brasil em Dakar 2026. A primeira veio com Ana Júlia Amaral, bronze nos 100 m borboleta da natação. No total, considerando as quatro edições dos Jogos da Juventude já disputadas, o Brasil acumula 34 medalhas: 11 ouros, 13 pratas e dez bronzes, além de um bronze nas Olimpíadas da Juventude de Inverno. São números que mostram um país presente, mas que também revelam onde está a consistência. E a consistência, repito, está no judô.

O que o judô faz diferente? Em primeiro lugar, capta cedo e retém. Uma criança que entra no judô aos quatro anos tem chances reais de permanecer no esporte se houver estrutura de clube, treinadores qualificados e uma trajetória de competições que faça sentido. O Flamengo, onde Clarisse treina, é um exemplo de clube que mantém equipe técnica dedicada às bases. Em segundo lugar, o judô brasileiro tem ídolos visíveis e acessíveis. Rafaela Silva, Sarah Menezes, Ketleyn Quadros, Mayra Aguiar, Tiago Camilo: são atletas que vieram de comunidades e clubes comuns e chegaram ao pódio olímpico. Essa visibilidade alimenta a próxima geração de um jeito que outras modalidades ainda não conseguiram reproduzir com a mesma força.

Clarisse Vallim é, agora, parte dessa corrente. Aos 16 anos, ela já tem um ouro olímpico juvenil, dois títulos mundiais cadetes e a responsabilidade de carregar uma expectativa que tende a crescer. O caminho dos Jogos da Juventude aos Jogos Olímpicos de fato não é automático. Muitos campeões juvenis não chegam lá, por lesão, por pressão, por falta de estrutura na transição para a categoria adulta. Mas o judô brasileiro tem mostrado que sabe fazer essa ponte melhor que a maioria. E Clarisse tem o que precisa para percorrê-la: técnica de solo apurada, capacidade de virar lutas difíceis nos segundos finais e uma história pessoal que a ancora no esporte desde antes de ela entender o que era competir.

O hino tocou em Dakar. Uma menina de 16 anos subiu no lugar mais alto do pódio. E o judô brasileiro, mais uma vez, mostrou que sabe exatamente o que está fazendo.

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