Esporte

O Brasil que planeja e o Brasil que apaga incêndios: dois lados do futebol na pré-temporada

Enquanto o CSA vive crise política com a carta de um presidente que desiste antes de assumir, Vilavelhense monta elenco com método e Mato Grosso investe em ciência. A pré-temporada revela dois modelos de gestão que explicam muito sobre o futebol brasileiro fora dos holofotes.

Por Camila NogueiraRedação QuantaBoo7 min de leitura
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Capa ilustrativa gerada com inteligência artificial.
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Há um momento no calendário do futebol brasileiro em que a bola para de rolar e a máquina administrativa acelera. Outubro vira novembro, os campeonatos estaduais ainda não começaram, e os clubes do interior e das capitais menos midiáticas entram naquela fase ingrata em que não há jogo para distrair o torcedor, só planilha, contrato e promessa. É nessa janela silenciosa que se revela, com uma clareza quase cruel, a diferença entre quem administra futebol como instituição e quem administra como foguete de festa: sobe, brilha e apaga.

Nesta semana, dois episódios em estados distantes mostraram exatamente esses dois Brasis. Em Maceió, o CSA vive o drama de um presidente que entregou uma carta aberta de desistência antes mesmo de consolidar sua gestão, deixando torcedores apreensivos e o departamento de futebol tentando manter a rotina a flutuações políticas. Em Vila Velha, no Espírito Santo, o Vilavelhense trata a pré-temporada de 2027 com a frieza de quem aprendeu que continuidade vale mais que estrelismo. E em Cuiabá, quase ao mesmo tempo, 36 profissionais concluíram uma capacitação em preparação física promovida pela Federação Mato-grossense de Futebol (FMF) com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL), investindo na base técnica que raramente aparece na capa dos jornais.

A carta que parou Maceió

Rafael Tenório desistiu de ser presidente do CSA. A notícia chegou por meio de uma carta aberta, formato que no futebol brasileiro costuma indicar menos uma renúncia formal e mais um grito de alerta, e pegou muita gente de surpresa. O superintendente de esportes Luciano Lessa, aclamado na mesma semana em que a crise veio à tona, precisou sair na frente para acalmar o ambiente. Segundo ele, nada mudou no dia a dia: os pré-contratos continuam sendo enviados, os atletas contatados foram tranquilizados, e o trabalho segue como se a política não devesse contaminar o gramado.

O problema é que, no futebol, a política sempre contamina. Lessa revelou que, caso a saída de Tenório se concretize, o vice-presidente Cristiano Mendonça assume o clube com o planejamento mantido. É um alívio para o torcedor azulino, mas também uma confissão implícita de que a continuidade do trabalho depende de uma conversa entre dois dirigentes, não de uma estrutura institucional robusta. Quando o plano de uma temporada inteira fica condicionado ao acerto pessoal entre duas figuras, o clube está operando no fio da navalha.

Lessa ainda aproveitou para comentar a provável contratação do meia Juliano Fabro, eleito craque do Campeonato Sergipano, mas sem confirmar nada. Disse que o jogador interessa, que tem qualidade, mas que não há nada definido. E estipulou um prazo: a partir da próxima semana, quando os pré-contratos estiverem assinados, os primeiros nomes serão divulgados. Até lá, ninguém será anunciado para não criar expectativa. É uma postura sensata de quem entende que promessa não ganha jogo, mas também é sintomático de um clube que precisa gerenciar a ansiedade da torcida enquanto resolve questões que deveriam estar fora do departamento de futebol.

Enquanto isso, o Vila constrói

No outro extremo do mapa, o Vilavelhense faz exatamente o que o CSA tenta fazer, mas sem o ruído político. O clube capixaba confirmou nove jogadores que retornam ou seguem no grupo para 2027, anunciou quatro reforços e oficializou Marco Antônio como auxiliar-técnico de Cal Santos, o novo comandante que terá sua primeira oportunidade como técnico principal aos 46 anos. Cal é formado em Educação Física, tem a Licença B da CBF e foi campeão da Copa Espírito Santo de 2009 como jogador do Vitória-ES. Não é um nome midiático, mas é alguém que conhece o futebol local por dentro.

O que chama atenção no trabalho do Vila é a lógica de continuidade. O clube chegou às semifinais das duas principais competições estaduais em 2026, foi eliminado pelo Serra no Capixaba e caiu nos pênaltis para o Vitória-ES na Copa Espírito Santo. Em vez de demitir, reformular do zero e recomeçar com discurso de reconstrução, o clube manteve a base e trocou apenas o comando técnico, promovendo alguém que já estava na comissão. É o tipo de decisão que parece pequena, mas que separa clubes que crescem de clubes que giram em falso.

Os nomes confirmados refletem essa filosofia. O goleiro Lucão disputou 12 partidas pelo clube em 2026. O lateral João Rozário, de 23 anos, jogou 15. O atacante Davis, de 21, marcou quatro gols em 11 jogos na campanha do título do Campeonato Capixaba Série B pelo Estrela do Norte. São atletas jovens, com histórico no estado, que conhecem a cultura do futebol local. Nada de contratar por currículo ou por indicação de empresário. O critério é pragmático: quem já provou que rende aqui, fica.

A ciência que chega ao interior

Se o CSA representa o Brasil que apaga incêndios e o Vilavelhense representa o Brasil que planeja, a capacitação realizada em Cuiabá representa uma terceira via: o Brasil que profissionaliza. A FMF, em parceria com CBF e CONMEBOL, formou 36 profissionais em preparação física ao longo de quatro dias, com aulas teóricas e práticas sobre metodologias de treinamento, avaliação, controle de carga e tomada de decisão. Os instrutores foram Rodrigo Rezende, preparador físico com passagens por clubes como Cuiabá e Joinville, e Israel Teoldo, professor titular da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e doutor em Ciências do Esporte pela Universidade do Porto.

Teoldo ressaltou algo que parece óbvio, mas que ainda não é prática generalizada no futebol brasileiro: corpo e mente não se separam. A capacitação trabalhou aspectos cognitivos junto com os físicos, porque a tomada de decisão dentro de campo depende tanto da preparação mental quanto da condicionada. Rezende, por sua vez, destacou a importância de avaliar, controlar carga e recuperar atletas diante de um calendário cada vez mais comprimido. Não é discurso de gabinete. É o tipo de conhecimento que, aplicado nos clubes menores, pode reduzir lesões, melhorar desempenho e evitar desperdício de recursos com atletas lesionados por excesso de jogo.

O presidente da FMF, Diogo Pécora, escolheu o momento com inteligência. A capacitação foi realizada justamente para que o aprendizado já pudesse ser aplicado na preparação da próxima temporada. A organização até ofereceu uma bolsa de estudos para um curso da CBF Academy ao participante com melhor pontuação, criando um incentivo concreto para que os profissionais se dediquem. É uma iniciativa modesta se comparada aos orçamentos dos grandes clubes, mas significativa para um estado que raramente aparece no noticiário nacional por investimentos em formação.

O que separa os dois Brasis

A diferença entre esses três episódios não está no tamanho do clube ou no estado em que se encontram. Está na cultura de gestão. O CSA tem história, torcida apaixonada e relevância regional, mas vive refém de decisões políticas que escapam ao departamento de futebol. O Vilavelhense é um clube modesto do Espírito Santo, sem vaga em competições nacionais em 2027, mas trata a pré-temporada com método: mantém base, contrata com critério, promove de dentro. A FMF investe na qualificação de profissionais que estarão nos gramados mato-grossenses, plantando uma semente que pode não gerar fruto imediato, mas que aponta para um caminho.

O futebol brasileiro fora do eixo Rio-São Paulo vive nesse tensionamento permanente. De um lado, a tentação do improviso, do nome de impacto, do técnico que promete título e sai em três meses. Do outro, a paciência de quem entende que continuidade não é conservadorismo, mas estratégia. Os clubes que enxergam essa diferença tendem a sofrer menos em épocas de crise e a aproveitar melhor as janelas de oportunidade. Os que não enxergam continuam trocando de presidente, de técnico e de elenco a cada ciclo, sempre com a mesma promessa e quase sempre com o mesmo resultado.

A pré-temporada de 2027 já começou, mesmo que a bola ainda não tenha rolado. E ela começou longe das câmeras, em planilhas, telefonemas para atletas, cursos de capacitação e conversas de corredor. É aí, nesse silêncio administrativo, que se decide muito mais do que em campo. O Brasil que planeja sabe disso. O Brasil que apaga incêndios ainda vai descobrir.

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