Tecnologia

O trilhão que sumiu: quando o mercado deixou de aplaudir a conta da IA

As gigantes de tecnologia já gastam mais do que ganham para construir a infraestrutura de inteligência artificial. O mercado respondeu com a maior desvalorização da história do setor, e o sinal vale para quem acompanha a corrida de perto.

Por Helena DuarteRedação QuantaBoo5 min de leitura
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Capa ilustrativa gerada com inteligência artificial.
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Há poucos meses, anunciar um investimento bilionário em inteligência artificial era sinônimo de aplauso imediato na bolsa. Não é mais. No final de outubro, após a divulgação dos resultados trimestrais, as ações da Alphabet, dona do Google, despencaram 12,64% em um único pregão, a maior queda diária da empresa desde a abertura de capital, em 2004. A desvalorização fez a companhia perder US$ 493,9 bilhões em valor de mercado em um dia, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta. Para dimensionar: o montante equivale a mais da metade do valor de mercado de todas as empresas listadas na bolsa brasileira.

O tombo não veio sozinho. Amazon, Meta e Microsoft também sofreram quedas expressivas após seus balanços, e juntas as quatro gigantes perderam quase US$ 900 bilhões em valor de mercado. A pressão se espalhou por Wall Street, arrastou o Nasdaq e atingiu fabricantes de chips com força. A Intel desabou 28,6%, sua pior queda desde 1974, embora por motivos que misturam o desânimo geral do setor a problemas próprios da companhia. O que une esses movimentos é uma pergunta simples que o mercado decidiu fazer de uma vez: quando tanto dinheiro gasto em IA vai virar lucro?

A conta que deixou de fechar

Os números behind do susto são tão claros quanto desconfortáveis. Segundo dados compilados pela Reuters, Amazon, Meta, Microsoft e Alphabet elevaram juntas os investimentos em infraestrutura de US$ 113 bilhões para US$ 207 bilhões em um ano, com previsão de outros US$ 232 bilhões no trimestre seguinte. Para 2026, os gastos de capital dessas quatro empresas podem chegar a US$ 740 bilhões. Os recursos vão principalmente para a construção de centros de processamento de dados, compra de chips e expansão da capacidade necessária para treinar e operar sistemas de IA.

O problema é que esse ritmo de investimento começou a superar o que as empresas geram de caixa. Em outro levantamento da Reuters, que inclui Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Oracle, os números mostram que nos primeiros nove meses de 2026 as cinco companhias investiram juntas US$ 556,9 bilhões, valor superior aos US$ 542,9 bilhões que geraram com suas operações no mesmo período. O grupo passou de um saldo positivo de US$ 143,5 bilhões em fluxo de caixa livre nos primeiros nove meses de 2025 para um resultado negativo de US$ 14 bilhões neste ano. Em outras palavras, as operações não estão cobrindo os gastos.

Como observa Nickolas Lobo, especialista de investimentos da Nomad citado pelo g1, o mercado continua confiante na demanda por IA, evidenciada pelos resultados crescentes da área de computação em nuvem. Mas os investidores passaram a cobrar mais: não basta anunciar grandes investimentos, é preciso mostrar que eles estão se transformando em receita e, principalmente, em geração de caixa. A confiança na tecnologia não sumiu. O que mudou foi a tolerância com o tempo de retorno.

O custo humano da reorganização

A pressão por resultados não se manifesta apenas nas cotações. Ela chega aos funcionários. O Dropbox anunciou no final de outubro o corte de cerca de 9% de seu quadro global, que tinha 2.113 pessoas em dezembro. A empresa estimou que as demissões vão custar entre US$ 27 milhões e US$ 33 milhões em indenizações e despesas relacionadas. O diretor de tecnologia, Ali Dasdan, também deixará o cargo em novembro. Segundo o Dropbox, os cortes buscam alinhar os investimentos às prioridades de produtos e crescimento.

É um padrão que se repete no setor. Quando o custo de infraestrutura de IA sobe e a cobrança por eficiência aperta, o ajuste passa pelo corte de pessoal e pela redefinição de equipes. A saída de Dasdan ocorre após outra mudança de liderança: em maio, o cofundador Andrew Houston deixou o comando da empresa. Não se trata de uma crise isolada de uma companhia de armazenamento na nuvem, mas do reflexo de um setor inteiro recalibrando prioridades sob pressão financeira.

Enquanto isso, a China segue outro caminho

Enquanto as gigantes americanas enfrentam a cobrança por retorno, a China vê a IA gerar fortunas em ritmo acelerado. A Hurun China Rich List, divulgada no final de outubro, registrou um recorde de 1.529 pessoas com patrimônio superior a 5 bilhões de yuans (cerca de US$ 750 milhões). Entre os 263 novos integrantes da lista, a maioria vem dos setores de semicondutores, inteligência artificial e robótica.

O caso mais simbólico é o de Liang Wenfeng, fundador da startup de IA DeepSeek, que estreou na sétima posição do ranking com uma fortuna estimada em US$ 41,7 bilhões. Sua ascensão veio após o lançamento do modelo R1, no ano passado. A DeepSeek estaria perto de concluir uma nova rodada de investimentos de 100 bilhões de yuans, o maior valor já registrado na indústria chinesa de IA, o que elevaria o valor de mercado da empresa para quase 500 bilhões de yuans. No topo da lista, Zhang Yiming, fundador da ByteDance, dona do TikTok, alcançou US$ 99,7 bilhões, o maior valor já registrado no ranking.

Rupert Hoogewerf, principal pesquisador do Hurun Research Institute, descreveu a lista de 2026 como o retrato de uma economia em duas velocidades: fortunas ligadas à tecnologia disparam enquanto as de setores tradicionais encolhem. Entre os 100 primeiros colocados, 60% construíram suas fortunas em setores considerados estratégicos pela China, áreas que fazem parte de um plano lançado em 2015 para alcançar liderança tecnológica em dez anos. O contraste com o cenário americano é instrutivo. Nos Estados Unidos, o mercado cobra que o investimento em IA se traduza rapidamente em caixa. Na China, o Estado e o capital privado continuam apostando na construção de capacidade, com tolerância maior para o horizonte de retorno.

Nada disso significa que a IA seja uma bolha prestes a estourar. A demanda existe, os resultados de computação em nuvem crescem e a tecnologia já mudou a forma como empresas e pessoas trabalham. O que os números do terceiro trimestre revelam é algo mais sutil: a fase em que bastava gastar para impressionar acabou. O mercado agora quer ver a conta fechar, e está disposto a punir duramente quem não apresenta um caminho claro até o lucro. Para quem acompanha a corrida de IA de fora das gigantes, a lição é observar não apenas o tamanho dos investimentos, mas a velocidade com que eles se convertem em receita. O entusiasmo tecnológico continua, mas agora dividindo espaço com a velha disciplina financeira.

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