Arte e Cultura

Cine Odeon reabre e devolve a Cinelândia o que ela nunca deveria ter perdido

Após seis anos parado, o cinema mais simbólico do Centro do Rio volta à ativa com ingresso popular e um filme brasileiro na abertura. Mais que uma reinauguração, é o sinal de que o cinema de rua ainda pode ser política pública.

Por Camila NogueiraRedação QuantaBoo6 min de leitura
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Há algo de teimosamente simbólico na reabertura do Cine Odeon nesta quinta-feira (29), após seis anos sem programação regular. Não é só o fato de um cinema centenário voltar a funcionar. É o que ele representa: a Cinelândia, aquele quarteirão do Centro do Rio que um dia foi o polo cinematográfico mais denso do país, reconquistando uma peça fundamental da sua identidade. A casa completa cem anos em 2026, e a data chega no momento certo para reabrir não uma sala, mas uma conversa sobre o que as cidades brasileiras deixaram morrer quando deixaram seus cinemas de rua fecharem.

A reabertura faz parte da primeira fase do programa Reviver Cinema, uma iniciativa da Prefeitura do Rio articulada com a Secretaria Municipal de Cultura e a RioFilme, voltada à revitalização dos cinemas de rua da cidade. O Odeon pertence ao grupo Severiano Ribeiro e Kinoplex, e o fato de uma parceria público-privada conseguir destravar uma casa que estava parada há seis anos diz algo importante: não é falta de interesse do mercado, é falta de política consistente. Quando o poder público entra com programa, meta e vontade, o cinema de rua volta.

A escolha do filme de abertura também não é casual. Feito Pipacandidato a representar o Brasil no Oscar 2027, é a carta de apresentação de uma casa que se reposiciona não como nostalgia arquitetônica, mas como espaço de cinema vivo, com produção nacional em destaque. Os ingressos para as duas sessões de reinauguração esgotaram, o que sugere que o público do Rio não abandonou o Centro como espaço cultural. Abandonaram-no as gestões que deixaram a região perder densidade, segurança e vida noturna ao longo de décadas.

O preço popular como estratégia, não como favor

Até 4 de novembro, os ingressos do Odeon custam R$ 12. A partir do dia 5, o valor fixa em R$ 15 para qualquer sessão e público. Em uma cidade onde o cinema de shopping já passou da casa dos R$ 40, a decisão de manter um preço acessível no coração do Centro é mais do que cortesia de estreia. É posicionamento. O Odeon não quer competir com o shopping. Quer ocupar um lugar que sumiu do mapa cultural carioca: o cinema como programa de rua, como parte de uma noite na cidade, como algo que se faz a pé, com jantar antes e café depois.

O modelo de preço popular tem limites, é claro. Sustentar R$ 15 por sessão em um prédio centenário, com custos de manutenção que só tendem a crescer, exige volume. E volume, no Centro do Rio, depende de algo que nenhuma política cultural resolve sozinha: segurança urbana, transporte noturno, comércio aberto, iluminação. O Reviver Cinema pode destravar as salas, mas a cidade precisa fazer a parte dela para que o público que lotou as sessões de estreia volte na terça-feira comum, no cinema vazio, no dia de chuva.

O que Manaus ensina sobre a fragilidade da cultura brasileira

No mesmo fim de semana em que o Rio celebra a reabertura de um espaço centenário, a notícia da morte do ator e diretor amazonense Matheus Sabbá, aos 30 anos, traz o contraponto doloroso. Matheus era uma figura central das artes cênicas do Amazonas, com passagens pelo Festival Amazonas de Ópera (FAO), pelo Festival Internacional de Música de Santa Catarina (Femusc), pelo Theatro Municipal de São Paulo e pelo Theatro São Pedro. Dirigiu o musical A Caixa Mágica do Natalpremiado no Cenym e no Prêmio Brasil Musical, e atuou no cinema no filme O Último Azul (2024), ao lado de Rodrigo Santoro.

O que impressiona na trajetória de Matheus é a velocidade e a densidade do que ele construiu em três décadas de vida. Em janeiro deste ano, assinou a direção de cena da ópera Onheamade João Guilherme Ripper, apresentada no Femusc, com uma adaptação que deu protagonismo à personagem indígena Iporangaba, representada como guerreira. A montagem abordava ancestralidade e conexão com a natureza, temas que raramente chegam ao palco com tratamento operístico no Brasil. A Federação de Teatro do Amazonas (Fetam), em nota de pesar, destacou o legado do artista como referência do teatro musical no estado. A cantora amazonense Cella, em homenagem nas redes sociais, escreveu que Matheus revolucionou o teatro no Amazonas e deixou uma marca que ninguém vai apagar.

A perda de um artista jovem, no auge da criação, é sempre uma tragédia. Mas no contexto cultural brasileiro, ela também expõe uma fragilidade estrutural: quantos Matheus Sabbá existem espalhados por este país, construindo obra relevante em festivais regionais, em teatros do interior, em espaços que dependem de edital, de verba contingenciada, de gestão que muda a cada quatro anos? A reabertura do Odeon e a morte de Matheus acontecem no mesmo ciclo de notícias, e juntas dizem algo que a cultura brasileira precisa ouvir: é possível revitalizar prédios e programas, mas o talento humano é o recurso mais escasso e mais frágil que temos.

O cinema de rua como medida de civilidade urbana

Inaugurado em 1926 no terreno do antigo Convento da Ajuda, o Odeon integrava o chamado quarteirão dos palácios de cinema, cuja concentração de salas deu nome à Cinelândia. Depois de períodos de fechamento e reformas, tornou-se uma das principais casas do Festival do Rio desde a primeira edição, em 1999. Em 2015, passou a se chamar Cine Odeon e Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro. A história da casa é, em certo sentido, a história do cinema brasileiro nas capitais: ciclos de esplendor, abandono, retorno, nova queda.

O que diferencia a reabertura de agora é o contexto. Pela primeira vez em anos, há um programa municipal estruturado, o Reviver Cinema, que não trata o cinema de rua como relíquia a ser preservada em vitrine, mas como infraestrutura cultural ativa. A RioFilme e a Secretaria Municipal de Cultura aparecem como articuladores, e o grupo privado entra com a operação. Se o modelo se sustentar, pode servir de referência para outras capitais que também perderam seus cinemas de centro. São Paulo, Recife, Salvador e Belo Horizonte têm histórias parecidas de degradação e abandono de salas tradicionais, e em nenhuma delas a solução virá sem parceria entre poder público e iniciativa privada.

O Cine Odeon reabre com ingresso esgotado, filme brasileiro na tela e preço que convida o público a voltar. O desafio agora não é a festa de estreia, mas a sessão das 16h de uma quarta-feira qualquer, daqui a seis meses. Se o público continuar voltando, a Cinelândia terá recuperado algo que vai muito além de uma sala de projeção. E o Brasil terá mais uma prova de que cultura urbana não é luxo, é medida de civilidade.

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