O mundo prometeu restaurar 1 bilhão de hectares e entregou um quarto
Relatório inédito da ONU divulgado na COP17 mostra que apenas 252 milhões de hectares estão em recuperação, um quarto do comprometido até 2030. Financiamento cobre menos de um quarto do necessário.

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O primeiro levantamento global sobre restauração de ecossistemas chegou na quinta-feira (29) durante a 17ª Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP17), em Yerevan, na Armênia, e o retrato não é confortável. Cerca de 252 milhões de hectares estão em algum estágio de recuperação no planeta, mas isso representa apenas um quarto da área que os países se comprometeram a restaurar até 2030. A promessa foi de aproximadamente 1 bilhão de hectares, uma extensão maior que o território brasileiro. A conta, até aqui, não fecha.
O relatório, elaborado por três órgãos da Organização das Nações Unidas (ONU), avalia o cumprimento de uma meta estabelecida em 2022, no Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal. A meta determina que pelo menos 30% dos ecossistemas degradados do planeta devem estar sob restauração efetiva até 2030. Para chegar lá, a ONU calcula que as ações precisam triplicar nos próximos anos. Inger Andersen, diretora-executiva do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), resumiu o momento com franqueza: estamos testemunhando um dos maiores movimentos em defesa da natureza de que se tem registro, mas ainda não na escala nem na velocidade necessárias.
Onde o mundo está trabalhando
A maior parte das áreas documentadas está em ambientes terrestres, principalmente florestas. São aproximadamente 232 milhões de hectares terrestres em recuperação, o equivalente a 92% do total identificado. A Ásia concentra a maior fatia, com 192,2 milhões de hectares, e a China aparece isoladamente como líder, com cerca de 127,4 milhões de hectares em recuperação. Na América do Sul, o total registrado chega a 5,4 milhões de hectares. O relatório cita o Brasil como exemplo de país que usa imagens de satélite e sistemas de acompanhamento ambiental para identificar áreas em recuperação, estimadas em 3,4 milhões de hectares.
É nos ambientes aquáticos que a situação fica mais preocupante. Apenas 11 milhões de hectares de rios, lagos e áreas úmidas estão sob restauração em 62 países, o que corresponde a 4,5% da meta para 2030. Nos ecossistemas marinhos e costeiros, são 5,7 milhões de hectares em 46 países, cerca de 23% do objetivo. A ONU alerta que a falta de dados pode deixar parte das iniciativas fora do levantamento, o que significa que o quadro real pode ser ligeiramente diferente, mas não necessariamente melhor.
O dinheiro que falta
A falta de recursos é um dos nós mais difíceis de desatar. Em 2022, o financiamento global para restauração chegou a US$ 64 bilhões. Parece muito, mas a ONU estima que seriam necessários US$ 296 bilhões por ano para cumprir os compromissos até 2030. Há um abismo entre o que se promete em conferências internacionais e o que efetivamente se destina ao trabalho de campo, à muda plantada, ao rio despoluído, ao manguezal recuperado.
O relatório também defende que combater as causas da degradação, como o desmatamento e a exploração inadequada dos recursos naturais, é tão importante quanto restaurar o que já foi perdido. E apresenta um argumento que vai além da retórica ambiental: estudos citados no documento estimam que as iniciativas de restauração poderiam criar até 32 milhões de empregos no mundo até 2030. Restaurar ecossistemas não é apenas uma questão de preservação, mas também de economia e de saúde pública, com impacto direto na disponibilidade de água e na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas.
Quando o mercado se move mais rápido que o tratado
Há algo de paradoxal no modo como o mundo lida com suas próprias transformações. Enquanto os governos assinam acordos e lutam para cumpri-los, certos comportamentos globais mudam em velocidade surpreendente, puxados por demanda e mercado. Um exemplo fora do campo ambiental ilustra o ponto: o mercado mundial de cervejas sem e com baixo teor alcoólico foi estimado em US$ 24 bilhões em 2025 e deve chegar a US$ 50,8 bilhões até 2035, segundo dados da consultoria Global Market Insights divulgados em reportagem do g1. O Brasil, segundo a World Brewing Alliance, já é o segundo maior consumor mundial de cerveja sem álcool, atrás apenas da Alemanha.
A comparação não é forçada. O que os dois movimentos têm em comum é a dependência de dados confiáveis e de compromissos verificáveis. A ONU ressalta que uma área estar sob restauração não significa que sua recuperação foi concluída. Em muitos casos, os trabalhos ainda estão em andamento, e os resultados para a biodiversidade precisam ser acompanhados durante anos. O mesmo princípio vale para qualquer meta global: medir é diferente de cumprir, e cumprir é diferente de transformar.
O que o relatório de Yerevan nos diz, no fundo, é que o mundo desenvolveu uma capacidade notável de prometer. A Década das Nações Unidas sobre Restauração de Ecossistemas está na metade do caminho, e o saldo é um quarto do prometido. Não é pouco, considerando que envolve coordenar governos, comunidades locais e recursos financeiros em escala planetária. Mas também não é suficiente. Triplicar o ritmo nos próximos quatro anos exigirá mais do que declarações. Exigirá dinheiro, dados e, sobretudo, a decisão política de tratar a restauração não como um item de luxo na agenda internacional, mas como infraestrutura básica para a sobrevivência do próprio modelo civilizatório que se diz comprometido em preservar.
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