O Brasil entrega à COP31 dois roteiros para o mundo sair dos fósseis e salvar as florestas
Ao fechar a presidência da COP30, o Brasil apresenta documentos voluntários para acelerar a transição energética global e frear o desmatamento até 2030, com propostas que agrupam países por perfil e enfrentam o gargalo do financiamento florestal.

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Na manhã desta quarta-feira, as redes sociais do Liverpool Football Club amanheceram mais nordestinas do que inglesas. Para anunciar a partida contra o Fenerbahçe pela Liga dos Campeões, o clube publicou uma imagem de seus jogadores caminhando pelo Farol da Ponta Verde, cartão-postal de Maceió. Não foi um gesto isolado: nas rodadas anteriores, o time já havia usado Manaus, Salvador e a Ilha de Sal, em Cabo Verde, como cenário. É uma estratégia de aproximação com o público brasileiro, mas também um sintoma de como o Brasil se apresenta ao mundo hoje, por caminhos tão diferentes quanto o futebol e a diplomacia.
Foi justamente na diplomacia que o país acabou de fazer sua aposta mais alta. Ao encerrar a presidência da COP30, a conferência do clima da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil não passou o bastão em silêncio. Às vésperas da COP31, que começa na Turquia, o governo entregou dois roteiros detalhados para que o mundo cumpra os compromissos assinados em Paris. Não são tratados negociados entre países. São contribuições voluntárias, construídas com 247 contribuições de 115 nações, que tentam responder a uma pergunta que incomoda todos os delegados: como transformar acordos bonitos em políticas públicas, investimentos e resultados mensuráveis.
Os dois documentos foram elaborados sob a liderança do presidente da COP30, André Corrêa do Lago, e da CEO da conferência, Ana Toni. O primeiro trata da transição para longe dos combustíveis fósseis. O segundo foca em interromper e reverter o desmatamento até 2030. Juntos, esses dois eixos respondem por aproximadamente 86% das emissões globais de gases de efeito estufa: 75% vêm dos fósseis e 11%, da perda florestal. O Brasil escolheu atacar exatamente onde o problema é maior, e escolheu fazer isso não com imposições, mas com uma arquitetura que reconhece uma verdade diplomática óbvia: não existe um caminho único para a transição.
Um diagnóstico que agrupa países em vez de generalizar
O roteiro energético parte de uma constatação pragmática. A transição já está em andamento, impulsionada não apenas por metas climáticas, mas por questões de segurança energética e competitividade. A expansão das fontes renováveis, a eletrificação e os ganhos de eficiência podem reduzir a dependência de mercados sujeitos à volatilidade de preços. Mas o documento também alerta para o risco de descompassos: se a oferta de fósseis cair mais rápido que a capacidade de substituição, haverá escassez e choque de preços. Se cair mais devagar, investimentos ficam ociosos e a dependência se prolonga.
Para lidar com essa tensão, o Brasil propôs uma ferramenta voluntária de autoavaliação que considera três dimensões: demanda de energia, oferta de energia e condições econômicas. A partir desse diagnóstico, os países são agrupados em 12 arquétipos, quatro para cada dimensão, conforme o grau de exposição à dependência de fósseis e a capacidade de conduzir a transição. A ideia é combinar instrumentos gerais com medidas específicas para cada perfil. Como disse Ana Toni, a mensagem é direta: a transição é inevitável, então comece a planejar agora, porque isso vai ser bom para o país, para a sociedade e para a economia.
Entre as medidas práticas apontadas estão a redução da queima e da liberação de gás metano durante a extração de petróleo e gás, a revisão dos subsídios à produção e ao consumo de combustíveis fósseis e a ampliação da geração renovável. Esse último ponto é sensível para o próprio Brasil, que avança no projeto de exploração de petróleo na Foz do Rio Amazonas. O roteiro não resolve essa contradição, mas coloca o país diante do espelho. Em abril deste ano, quase 60 países formaram uma coalizão em Santa Marta, na Colômbia, para discutir planos nacionais de transição fora do processo formal das COPs. Alemanha, França e Holanda já apresentaram roteiros próprios, considerados mais específicos por serem elaborados pelos governos responsáveis pela implementação. O diferencial brasileiro é tentar oferecer um método que sirva para todos, sem ignorar as assimetrias.
O desmatamento que não para e o dinheiro que não chega
O segundo roteiro trata de florestas e é, talvez, o mais desconfortável. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o desmatamento global caiu de uma média anual de 17,6 milhões de hectares entre 1990 e 2000 para 10,9 milhões de hectares entre 2015 e 2025. Ainda assim, permanece em níveis elevados. As florestas tropicais representam aproximadamente 45% da área florestal mundial, mas responderam por 88% do desmatamento registrado entre 1990 e 2025. O documento também chama atenção para a degradação florestal, quando a mata permanece em pé mas perde capacidade de armazenar carbono, regular o ciclo da água e preservar a biodiversidade. Calor, secas e incêndios podem agravar o problema e aumentar o risco de mudanças irreversíveis em ecossistemas como a Amazônia.
O plano estabelece cinco frentes: conservação; manejo florestal sustentável, agrofloresta e bioeconomia; combate à degradação; combate ao desmatamento; e restauração e reflorestamento. Mas o gargalo mais duro é o financiamento. Segundo estimativas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), os recursos destinados às florestas precisam subir de US$ 84,5 bilhões em 2023 para mais de US$ 300 bilhões por ano até 2030. O problema é que os orçamentos públicos nacionais responderam por 88,3% do financiamento florestal registrado em 2023, enquanto os recursos públicos internacionais representaram apenas 3,4%. Esse desequilíbrio é particularmente grave para países em desenvolvimento, que concentram a maior parte das florestas tropicais e precisam arcar com parcela expressiva dos custos de conservação.
O documento examina 30 mecanismos internacionais de financiamento, entre eles pagamentos por resultados, iniciativas jurisdicionais de REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação) e o Tropical Forest Forever Facility (TFFF), mecanismo criado para remunerar países pela conservação de florestas tropicais. Em vez de propor uma nova arquitetura financeira do zero, o roteiro mapeia o que já existe e tenta organizar. Corrêa do Lago ressalta que esses mapas não são só para governos: são para a sociedade civil, para os setores econômicos, para as empresas e para os governos subnacionais. É uma forma de dizer que a implementação não pode esperar pela burocracia multilateral.
O que resta quando a diplomacia encontra a realidade
A força dos roteiros brasileiros está exatamente no que eles não pretendem ser. Não são acordos vinculantes, não passam por negociação formal entre países e não geram sanções. São contribuições do time que coordenou a COP30, oferecidas ao mundo como um guia prático. Isso pode parecer pouco diante da urgência climática, mas tem um mérito: evita o impasse diplomático que tantas vezes paralisa as conferências. Ao mesmo tempo, expõe a fragilidade do sistema. Se a implementação depende de adesão voluntária, o ritmo fica refém da vontade política de cada país.
O Brasil sai da presidência da COP30 com um ativo diplomático real. Apresentou método, reconheceu assimetrias e não fugiu de temas espinhosos como subsídios a fósseis e subfinanciamento florestal. O desafio agora é outro: provar que o roteiro funciona na prática, inclusive dentro de casa. A Foz do Rio Amazonas, o desmatamento que persiste e a distância entre o discurso e o orçamento vão continuar sendo testados a cada conferência. A Turquia será o primeiro palco onde esses documentos serão postos à prova, e o mundo vai estar olhando.
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