Saúde

Inteligência artificial no SUS: a tecnologia que enxerga a pele brasileira

Novo sistema do SUS em parceria com o Einstein usa IA para diagnosticar doenças de pele em áreas sem internet. A iniciativa reflete um movimento de modernização que inclui capacitação de profissionais e acesso facilitado à prevenção.

Por MarthaRedação QuantaBoo5 min de leitura
Ouça esta matéria.
Imagem ilustrativa para Inteligência artificial no SUS: a tecnologia que enxerga a pele brasileira
Capa ilustrativa gerada com inteligência artificial.
Nesta matéria

Imagine a cena em uma unidade básica de saúde no interior do Brasil. Um paciente chega com uma lesão na pele que não cicatriza, mas a cidade não tem um dermatologista disponível para avaliar o caso. A espera por um diagnóstico preciso pode levar semanas, às vezes meses, enquanto a doença avança e complica o tratamento. É para esse cenário real e desafiador que uma parceria entre o Ministério da Saúde e o Hospital Israelita Albert Einstein está olhando com bastante seriedade. Juntos, eles desenvolveram o CUTIS-AI, um sistema baseado em inteligência artificial para apoiar profissionais de saúde na triagem e identificação de doenças de pele.

A iniciativa utiliza imagens da lesão do paciente combinadas a dados clínicos, epidemiológicos e sociodemográficos que refletem a nossa realidade. A ferramenta já alcançou uma taxa de acerto de cerca de 80% e tem um detalhe fundamental para o Brasil: funciona mesmo em locais sem conexão com a internet. O aplicativo pode ajudar a identificar enfermidades como esporotricose, leishmaniose cutânea, hanseníase, cromoblastomicose e até lesões causadas por picadas de aranha marrom. A proposta não é substituir o médico, mas dar um suporte robusto para quem está na ponta do atendimento, muitas vezes isolado de grandes centros médicos.

A diversidade brasileira como dado central

Quando falamos de inteligência artificial na saúde, a qualidade dos dados é tudo. Uma tecnologia treinada com imagens de uma população específica pode simplesmente não funcionar quando aplicada a outra, gerando erros perigosos. O secretário de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, Fabiano Geraldo Pimenta Junior, ressalta que construir uma base brasileira é essencial para o sucesso da ferramenta. O estudo do CUTIS-AI já analisou cerca de 1,4 mil pacientes e conta com mais de 4 mil imagens de lesões, capturando diferentes fototipos de pele, condições de vida e perfis epidemiológicos de norte a sul do país.

Essa diversidade é o que torna a ferramenta promissora e adaptada à nossa população. A cientista de dados do Einstein, Isabelle Carvalho, explica que o objetivo é ampliar a capacidade de identificação em regiões com menor disponibilidade de especialistas. Ao reunir imagens variadas, a inteligência artificial se torna mais preparada para reconhecer as características das lesões na pele brasileira. É um exemplo claro de como a tecnologia pode ser uma aliada da equidade, desde que seja pensada a partir de quem vai usá-la e de quem será por ela atendida.

Capacitação e prevenção andam de mãos dadas

A tecnologia brilha quando o profissional na ponta sabe o que fazer com ela e tem estrutura para dar continuidade ao cuidado. Por isso, a capacitação contínua dos trabalhadores da saúde é tão importante quanto a inovação digital. Um reflexo desse movimento veio da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), que abriu 500 vagas gratuitas para a segunda turma da especialização em Doença Renal Crônica. O curso, oferecido na modalidade a distância, é voltado para profissionais da área da saúde com graduação completa e atuação na atenção primária ou especializada.

A formação tem ênfase na prevenção, no rastreamento e no tratamento da doença renal dentro da rede de saúde. Com 435 horas distribuídas em 14 módulos ao longo de 18 meses, a especialização busca aprimorar as competências clínicas e gerenciais dos profissionais. As vagas são destinadas preferencialmente a candidatos com vínculo ativo com o Sistema Único de Saúde (SUS). É a mesma lógica de fortalecer a base do sistema. Se o SUS ganha um aplicativo de inteligência artificial para doenças de pele, também precisa de médicos e enfermeiros cada vez mais preparados para lidar com enfermidades crônicas que exigem acompanhamento de longo prazo.

Recriando o acesso para quem trabalha o dia todo

Toda essa estrutura de inovação e capacitação só faz sentido se o paciente conseguir chegar ao serviço de saúde. E muitas vezes a barreira não é a distância física, mas o horário de funcionamento. Em Belém, o Posto de Saúde do Jurunas decidiu mudar essa lógica durante a campanha do Novembro Azul. A unidade ofereceu exames e consultas gratuitas para homens das 16h às 20h, justamente para facilitar o acesso de quem trabalha durante o dia e não pode perder horas de serviço para cuidar da própria saúde.

A iniciativa da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) busca desmistificar a ideia de que a saúde do homem se resume ao exame de próstata. O foco é o autocuidado diário, a prevenção de doenças cardiovasculares, enfermidades crônicas e a busca regular por consultas. Oferecer testes rápidos, aferição de pressão e orientações nutricionais no fim da tarde é uma atitude simples, mas que muda a relação da população com a prevenção. Quando o sistema de saúde se adapta à rotina das pessoas, em vez de exigir o contrário, o cuidado chega mais longe e de fato cumpre seu papel.

Esses exemplos mostram um SUS que ensaia passos importantes de modernização e adaptação. Seja com um aplicativo que enxerga a pele brasileira em locais sem internet, com uma especialização que treina profissionais para o cuidado renal, ou com um posto que abre à noite para acolher quem não pode parar o dia, o caminho é o mesmo. Trata-se de usar a inteligência disponível, seja ela artificial ou humana, para diminuir distâncias e salvar tempo. No fim das contas, é exatamente disso que a saúde pública mais precisa para evoluir.

Referências desta matéria

Consulte as fontes usadas pela redação.

Sugerir uma correção
Ouça esta matéria.