O espetáculo que apagou: o fim da Coperni e a moda brasileira que se estrutura para o mundo
A queda da marca francesa Coperni, famosa pelo vestido de spray, mostra que viralizar não é sustentar um negócio. Enquanto isso, pequenas marcas fluminenses se preparam para exportar com bases sólidas.

Nesta matéria
Você provavelmente viu aquela cena que tomou conta da internet há algum tempo. A modelo Bella Hadid desfilava por uma passarela usando apenas calcinha e cobrindo o peito com as mãos, enquanto três cientistas armados com pistolas borrifavam um líquido branco sobre seu corpo. Em poucos minutos, o líquido secava e se transformava em um vestido de tecido sólido, que ela desfilava para a plateia extasiada. Era a marca francesa Coperni apresentando seu famoso vestido de spray, misturando alta costura, tecnologia e um senso de espetáculo que poucas vezes vimos no mundo da moda. Pois a marca que soube transformar desfiles em eventos virais acabou de anunciar o fim de suas atividades.
A notícia foi dada pelos fundadores, Arnaud Vaillant e Sébastien Meyer, em seu perfil no Instagram. A razão do encerramento não foi a falta de repercussão ou de estilo, mas um problema bem mais prosaico e letal: um conflito financeiro severo com seu acionista majoritário. A marca entrou em recuperação judicial em junho e, segundo a imprensa especializada, os dirigentes acusavam a Tomorrow London, empresa que apoia jovens grifes, de não repassar os valores devidos por vários meses. A situação se deteriorou tanto que a Coperni chegou a desistir de participar da Semana de Moda de Paris em março, alegando justamente problemas com o parceiro.
O brilho que ofuscou a estrutura
Para entender como uma grife que vestia celebridades como Kylie Jenner e Bella Hadid chega ao fim, é preciso olhar para sua trajetória. A Coperni foi criada em 2013, chegou a ficar inativa entre 2015 e 2018, quando seus fundadores foram comandar outra marca tradicional, a Courrèges. O verdadeiro renascimento veio em 2019, com o apoio justamente da Tomorrow London, que se tornou acionista majoritária. A partir daí, a grife impôs um estilo futurista e lúdico, cheio de referências a videogames e à cultura geek. Entre 2019 e 2024, a ascensão foi meteórica, com vendas fortes e presença massiva nas redes sociais graças aos desfiles espetaculares.
O que aconteceu com a Coperni nos ensina uma lição curiosa sobre o mercado fashion. A moda, especialmente nos últimos anos, tornou-se obcecada pelo momento viral, por aquela imagem que vai bombar no TikTok e no Instagram. A marca francesa dominou essa arte como nenhuma outra. No entanto, o espetáculo não pode ofuscar a estrutura. Quando a relação com o investidor que sustentava o crescimento financeiro se rompeu, não havia governança corporativa suficiente para segurar a operação. A criatividade estava intacta, mas o negócio estava doente.
Do outro lado do oceano: a moda brasileira que se prepara
Enquanto a Coperni encerra suas portas na Europa, um movimento completamente diferente, e talvez mais saudável, acontece no Brasil. No Rio de Janeiro, não há pistolas de spray nem celebridades internacionais, mas há 35 pequenos negócios de moda e acessórios que estão aprendendo a construir bases sólidas para ganhar o mundo. O Sebrae Rio promove no dia 18 de novembro, na Casa Brasil no Centro do Rio, o ProGlobal Fashion Day, evento que encerra um programa de preparação de pequenas marcas fluminenses para o mercado internacional.
O programa ProGlobal Moda é um excelente exemplo de como a internacionalização de uma marca não acontece por acaso ou por um desfile que viraliza. Para que uma pequena empresa de bolsas ou de moda praia consiga vender para a Europa ou a América do Norte, é preciso tratar de temas que não aparecem nas capas de revistas, mas que definem o sucesso ou o fracasso de um negócio. As marcas participantes do programa passaram por um processo detalhado de posicionamento e branding, formação de preços, adequação de produtos, comunicação internacional e definição de mercados-alvo.
O grupo é diversificado e reflete a força do design brasileiro. Há marcas de vestuário feminino, moda praia, resort, fitness, além de fabricantes de acessórios como bolsas, calçados, joias e semijoias. O que chama a atenção é que cerca de metade dessas empresas já possui experiência prévia em exportação, enquanto as demais estão se preparando para acessar mercados externos pela primeira vez. Elas estão aprendendo a fazer o dever de casa, aquilo que falta para muitos gênios criativos que dependem de investidores para sobreviver.
Espetáculo versus longevidade
Os dados do comércio exterior mostram o tamanho do desafio dessas pequenas marcas. No Brasil, os pequenos negócios representam uma fatia expressiva das empresas que atuam no comércio exterior, sendo 39,7% das exportadoras e 50,1% das importadoras. No Rio de Janeiro especificamente, eles são 4,3% das empresas exportadoras. Os números mostram que há espaço para crescer, mas o caminho exige preparo comercial e conhecimento de mercado, exatamente como defende Claudine Bichara, gerente de Negócios Internacionais do Sebrae Rio.
A comparação entre o fim da Coperni e a preparação das marcas cariocas não é sobre tamanho ou orçamento. É sobre filosofia de negócio. A marca francesa mostrou que é possível conquistar o mundo com ideias brilhantes e espetáculos inesquecíveis, mas também provou que a falta de alinhamento financeiro e administrativo pode derrubar até a grife mais falada do momento. Já as pequenas empresas fluminenses estão construindo seu caminho de forma silenciosa, ajustando preços, estudando mercados e fortalecendo suas marcas antes de tentar a sorte lá fora.
No fim das contas, a moda sempre será um misto de sonho e realidade. O vestido de spray de Bella Hadid foi um sonho lindo de ver, uma daquelas ideias que fazem a moda parecer mágica. Mas a longevidade no setor pertence a quem entende que, por trás de cada peça desfilada, existe uma planilha, um contrato, um preço calculado e uma estratégia de mercado. As 35 marcas do Sebrae Rio podem não ter a mesma repercussão imediata, mas têm algo que a Coperni perdeu no meio do caminho: uma estrutura pensada para durar.
Referências desta matéria
Consulte as fontes usadas pela redação.
Sugerir uma correção



