Educação

Inclusão avança nos anos iniciais, mas o ensino médio revela o abismo que ainda separa alunos com deficiência do resto da turma

Estudo inédito do Instituto Rodrigo Mendes mostra que a aprendizagem de alunos da educação especial melhorou no 5º ano entre 2013 e 2023, mas a distância em relação ao ensino regular cresce no 9º ano e no ensino médio, onde os números beiram o colapso.

Por André ValençaRedação QuantaBoo6 min de leitura
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Neste fim de semana, mais de 5 milhões de estudantes fazem o Enem 2026. O país olha para os portões, as canetas, a ansiedade dos últimos dias. Mas há uma pergunta que quase ninguém faz nesse ritual anual: quantos desses estudantes chegaram até ali com aprendizagem adequada, e quantos foram empurrados pelo sistema sem ter aprendido o básico? A resposta, quando se olha para os alunos da educação especial, é desconfortável. Um estudo inédito do Instituto Rodrigo Mendes (IRM), em parceria com a Fundação Lemann e o Instituto Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), acaba de trazer números que merecem mais do que uma leitura otimista.

A pesquisa usou dados do Saeb, o Sistema de Avaliação da Educação Básica, e cobre uma década, de 2013 a 2023. O recorte é preciso: alunos com deficiência, autismo ou altas habilidades matriculados na rede pública. E a primeira leitura é, de fato, animadora. No 5º ano do ensino fundamental, a proporção de alunos da educação especial com aprendizagem adequada em português mais que dobrou, passando de 20,7% para 44,5%. Em matemática, o salto foi de 16,9% para 33,9%. Mais relevante ainda: a diferença em relação aos alunos da educação regular caiu de forma consistente. Em português, o gap encolheu de 20,2 pontos percentuais para 11,4. Em matemática, de 18,7 para 10,4. São números que mostram algo real: quando a escola se preocupa com inclusão nos anos iniciais, o resultado aparece.

O abismo que se abre nos anos finais

O problema começa quando esses alunos avançam. No 9º ano, o cenário muda de tom. Os alunos da educação especial até melhoraram, passando de 11,9% para 18,8% em português, mas os estudantes da educação regular avançaram mais, de 24,3% para 36,8%. A diferença entre os dois grupos, que tinha encolhido no 5º ano, volta a crescer. É como se o sistema soubesse incluir na entrada e perdesse o fôlego no meio do caminho.

No 3º ano do ensino médio, os números são de uma gravidade que merece ser dita sem eufemismo. Em matemática, apenas 3,2% dos alunos da educação especial atingiram aprendizagem adequada em 2023. O número era 2,9% em 2017. Quase uma década se passou e o avanço foi de três décimos. Entre os demais estudantes, o percentual subiu de 5,1% para 5,2%. Não é um problema de inclusão isolado: é um problema estrutural do ensino médio brasileiro, que afeta todos, mas esmaga com força redobrada quem precisa de mais apoio. Quando 96,8% dos alunos com deficiência saem do ensino médio sem aprendizagem adequada em matemática, não estamos falando de uma lacuna pedagógica. Estamos falando de uma falha sistêmica.

A autora do estudo, Maria Laura Gomes, faz uma observação que precisa ser levada a sério. Os dados do Saeb captam apenas os alunos que chegaram às etapas avaliadas e eram elegíveis para a prova. Não enxergam quem evadiu, quem abandonou, quem foi empurrado para fora do sistema ao longo do percurso. Ou seja, a realidade pode ser pior do que o relatório mostra, porque os números mais graves já são apenas dos que resistiram.

O que muda quando a rede se organiza

Há, no meio desse cenário, uma história que vale contar. Gado Bravo, município paraibano de pouco mais de 8 mil habitantes, tem uma grande população de surdos. Em vez de tratar isso como um problema isolado, a secretaria de Educação criou uma coordenação de educação inclusiva e passou a identificar ativamente os estudantes com deficiência, autismo ou altas habilidades. Os alunos surdos ganharam auxílio de ledores. A rede passou a buscar cadeirantes em casa com transporte adequado. Trabalha com as famílias para que entendam a importância de manter as crianças na escola. E garantiu que todos os estudantes da educação especial participassem do Saeb, com provas adaptadas e recursos de acessibilidade.

Não é milagre. É planejamento. A secretária Maria José da Conceição descreve algo que deveria ser óbvio, mas não é: a escola precisa ir até o aluno, e não esperar que o aluno se adapte sozinho. O estudo do IRM confirma que a participação dos alunos da educação especial no Saeb cresceu em todas as etapas. No 5º ano, passou de 61,6% para 74,4% entre 2013 e 2023. No 9º ano, de 65,7% para 76,1%. No ensino médio, de 67,4% em 2017 para 75,9% em 2023. Mas o dado também revela uma assimetria cruel: alunos com altas habilidades tiveram participação 85% acima da média, enquanto alunos com deficiência múltipla participaram quase 50% menos. O sistema ainda sabe incluir quem tem facilidade e se enrola com quem tem necessidade mais complexa.

Os dois gargalos que explicam quase tudo

Se a pergunta é por que o avanço não chega ao ensino médio, duas respostas se destacam no relatório, e ambas são estruturais. A primeira é a formação dos professores. Apenas 6,4% dos docentes no Brasil têm formação continuada em educação especial. Não dá para esperar que um professor que nunca foi preparado para lidar com deficiência múltipla, autismo ou surdez consiga, sozinho, garantir aprendizagem adequada em sala de aula. A segunda é a acessibilidade física e operacional. Dados da Fundação Lemann citados no estudo mostram que uma em cada quatro escolas brasileiras não possui nenhuma estrutura de acessibilidade. Nenhuma. Sem rampa, sem banheiro adaptado, sem recurso de comunicação.

Maria Laura Gomes aponta o equívoco que está na raiz desse problema. A lógica atual é reativa: a escola só adapta quando recebe um aluno com deficiência. O ideal seria o contrário. Toda escola deveria ser acessível por padrão, independentemente de quem está matriculado. Parece caro, e provavelmente é. Mas o custo de manter 96,8% dos alunos com deficiência saindo do ensino médio sem aprender matemática é maior. Paga-se em exclusão, em desemprego, em dependência de programas sociais, em vidas que poderiam ter outro rumo.

O Enem 2026 vai distribuir vagas no ensino superior pelo Sisu, pelo Prouni e pelo Fies. No Rio de Janeiro, 363,7 mil inscritos vão tentar uma vaga. Desses, 134 mil vêm da rede pública e foram inscritos automaticamente. A pergunta que fica é quantos deles, especialmente os da educação especial, chegaram até o dia da prova com a aprendizagem que o exame pressupõe. O estudo do IRM não dá essa resposta direta, mas oferece o quadro de fundo. E o quadro diz que o Brasil aprendeu a incluir nos anos iniciais, ainda não aprendeu a sustentar essa inclusão até o fim. A inclusão que não vira aprendizagem é apenas presença. E presença sem aprendizagem é meio caminho, não caminho inteiro.

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