No rastro do segundo turno: como plebiscitos e eleições suplementares mudaram o mapa local do Brasil
Enquanto o país acompanhava a reeleição de Lula, eleitores de 13 cidades decidiram prefeitos em eleições suplementares e redefiniram fronteiras locais por meio de plebiscitos. Entenda como funcionam esses instrumentos da democracia direta.

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Enquanto o Brasil inteiro respirava fundo diante da apuração da disputa pela Presidência da República, com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva marcada por uma virada inédita e celebrada nas redes sociais com uma enxurrada de memes sobre o "tetra", um punhado de municípios vivia um domingo de democracia com um sabor ainda mais local. Longe dos holofotes nacionais, eleitores de cidades como Arroio do Sal, no Rio Grande do Sul, e Chopinzinho, no Paraná, foram às urnas não apenas para escolher o próximo presidente, mas para resolver pendengas administrativas e políticas que afetam diretamente o seu dia a dia.
Nesse mesmo 25 de outubro, a Justiça Eleitoral convocou sete municípios para realizar eleições suplementares e outros seis para participar de plebiscitos. Esses mecanismos, embora menos conhecidos do grande público, são fundamentais para entender que a democracia não se resume às disputas pelo Palácio do Planalto. Eles mostram como o voto pode ser usado para corrigir rumos de gestões municipais e até para redesenhar o mapa geográfico de uma região. Para quem assiste de fora, parece um detalhe burocrático, mas para quem mora nessas localidades, o resultado da urna define qual prefeitura vai recolher o imposto, qual cidade vai cuidar da escola e onde o posto de saúde será administrado.
Quando a urna decide mais do que o presidente: as eleições suplementares
As eleições suplementares soam como uma segunda chance para a democracia municipal. Elas ocorrem quando a Justiça Eleitoral precisa corrigir um problema no pleito anterior. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) explica que essas eleições são realizadas nos casos em que a Justiça tenha indeferido, ou seja, recusado, ou cassado o registro de candidatura do aspirante ao cargo que havia sido o mais votado. Isso pode acontecer por diversos motivos graves, como o abuso de poder político e econômico durante a campanha.
Neste segundo turno, sete cidades brasileiras elegeram seus futuros prefeitos e vices por meio desse recurso. Em Itaguaí, na região metropolitana do Rio de Janeiro, a disputa foi vencida por Haroldinho Jesus, com uma vantagem expressiva. Em Arroio do Sal, no Rio Grande do Sul, Felipe Valim obteve quase 63% dos votos válidos. O interior paulista também esteve em evidência, com a eleição de novos gestores em Macedônia e Martinópolis. Um caso curioso chamou atenção em Narandiba, também em São Paulo, onde o candidato Claudião Damacena recebeu o maior número de votos, mas o resultado ainda depende de análise da Justiça Eleitoral, pois sua candidatura está sub judice, uma expressão em latim que significa que o assunto ainda está sob julgamento.
Redesenho do mapa: o que é um plebiscito e por que ele importa
Se a eleição suplementar serve para escolher quem governa, o plebiscito serve para decidir questões estruturais sobre o próprio território. O plebiscito é uma consulta popular feita antes da criação de uma lei ou de uma decisão administrativa. Nesse caso, os eleitores de seis municípios, quatro em Mato Grosso e dois no Paraná, foram chamados às urnas para decidir se aceitavam a transferência de distritos de uma cidade para outra.
Em Mato Grosso, os eleitores de Primavera do Leste e Poxoréu decidiram que o distrito de Nova Poxoréu, que hoje pertence a Poxoréu, passará a fazer parte de Primavera do Leste. Outra decisão semelhante ocorreu entre Cotriguaçu e Colniza, onde os moradores aprovaram a transferência do distrito de Ilhas de Ocupação do Projeto de Assentamento Nova Cotriguaçu para o território de Cotriguaçu. No Paraná, a Comunidade do Alto Mirim, que era de Chopinzinho, foi incorporada ao município de São João por decisão popular. Essas mudanças podem parecer pequenas no mapa do Brasil, mas elas alteram a jurisdição sobre terras, a arrecadação de impostos e o acesso a serviços públicos para centenas de famílias.
O caminho até a validação dos resultados locais
Depois que o último eleitor deposita seu voto na urna, o trabalho da democracia não termina. Tanto nas eleições suplementares quanto nos plebiscitos, existe um caminho burocrático rigoroso que garante que a vontade popular seja respeitada e aplicada dentro da lei. No caso dos plebiscitos, a Comissão Apuradora das Eleições Gerais de 2026 precisa consolidar os resultados. Em seguida, os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) deverão proclamar esses resultados e encaminhar tudo ao TSE para a homologação final, que é a validação oficial da decisão.
Esse fluxo mostra como o sistema eleitoral brasileiro possui camadas de verificação para evitar fraudes e garantir a segurança jurídica. Para os moradores de Nova Poxoréu ou da Comunidade do Alto Mirim, a homologação pelo TSE será o marco que oficializará a nova divisão territorial. Para os eleitores das sete cidades que escolheram novos prefeitos, o fim da apuração representa a chance de recomeçar a gestão municipal após os percalços que levaram à anulação da eleição anterior.
O grande barulho da reeleição presidencial e os memes que inundaram a internet ofuscam, naturalmente, a complexidade do que acontece nos bastidores do sistema eleitoral. Contudo, é nessas pequenas urnas espalhadas pelo interior do país que vemos a engrenagem da democracia funcionar em sua forma mais cirúrgica. O voto que escolhe um presidente tem peso nacional, mas o voto que transfere um distrito ou elege um prefeito em eleição suplementar tem um peso imediato na vida da comunidade. Entender esses mecanismos é essencial para perceber que o poder de decisão no Brasil não reside apenas no centro, mas se ramifica por todo o território nacional.
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